sexta-feira, 27 de março de 2009

conversa de gajas numa esplanada qualquer, defronte a um rio qualquer

Foto de Jacky Jourdren




Ela1 – Sinto-me um peixe fora d’água há que tempos...
Ela2 – Eu tenho um aquário vazio lá em casa.
Ela1 – Vai gozar a tua tia.
Ela2 – Tadinha, é uma querida. Vai fazer 92 anos.
Ela1 – Porra! Como é que aguentou?
Ela2 – Ó querida, no antigamente dela não havia peixes fora d’água. Os que havia eram mortos à nascença.
Ela1 – Que simplista de merda! Sempre houve, felizmente...
Ela2 – Estava só a querer animar-te, carago!
Ela1 – Então não te faças de burra, que eu não tenho paciência para aturar a burrice dominante.
Ela2 – Até parece que estás a fazer-me concorrência.
Ela1 – Convencida também não (levantando a voz).
Ela2 – Ó pá, assim estás a cortar-me as deixas todas. Foda-se!
Ela1 – Para ti também.
Ela2 – Pronto. Eu baixo as guardas. Esta merda não se aguenta. Tens razão.
Ela1 – Obrigada.
Ela2 – Deixa de ser cínica. Sou eu que estou aqui, não é a gaja que encontras no cabeleireiro.
Ela1 – (Desata às gargalhadas) Agora tiveste piada.
Ela2 – Porra! Estava a ver que hoje não conseguia.
Ela1 – O quê? Estás com prisão de ventre?
Ela2 – (Desata igualmente às gargalhadas) Ok. Estamos quites. Bora lá asneirar um bocado pela rua fora: “duas velhas foram presas pela PSP por desacato e atentado ao pudor”... 1ª página de jornal, amanhã.
Ela1 – Bora.
(Levantam-se e atiram com as cadeiras ao chão. Saem de cena)



DIA MUNDIAL DO TEATRO



Mensagem de Augusto Boal (encenador e teórico do teatro, brasileiro, fundador do Teatro do Oprimido) para o ano 2009


Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu quotidiano e produzem espectáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas de forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo aquilo que fazemos no palco fazemos sempre nas nossas vidas: nós somos teatro!Não só os casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais quotidianos, que por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só rituais de pompa, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Parlamento ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espectáculos da vida diária onde os actores são os próprios espectadores, o palco é a plateia e a plateia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro, aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas que somos incapazes de ver, tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida quotidiana.Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós, que pensávamos viver num mundo seguro apesar das guerras, genocídios, hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes e selvagens, nós vivíamos seguros com o nosso dinheiro guardado num banco respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa - nós fomos informados de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas das suas decisões, continuamos espectadores sentados na última fila das galerias.Há vinte anos atrás, eu encenei "Fedra" de Racine, no Rio de Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes de começar o espectáculo, eu dizia aos meus atores: - “Agora acabou a ficção que fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.Vendo o mundo para além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, géneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel. Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida.Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em vossas casas com os seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento - é forma de vida!Actores somos todos nós, e o cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!



segunda-feira, 23 de março de 2009

este amor



Sara e Inês, Serralves, 22 de Março 2009





para as minhas filhas




há um amor
que não se diz com palavras
que me escorrega
diante dos olhos e alimenta

há um amor
que se mede cada dia
sem tempo, nem lugar
como um sopro divino

há um amor
que me corre no sangue
e me envolve de quentura
como a seiva do mar

e esse amor floresceu
e esse amor reproduziu-se
e esse amor está em vós
inscrito como eterno testemunho.

domingo, 22 de março de 2009

O novo velho Brecht







Fotos de TAMBORES da NOITE, de Bertolt Brecht
(do site do TNSJ e do Manual de leitura)
Foi com esta peça do jovem Bertolt Brecht (1922) que Nuno Carinhas se estreou como Director Artístico do TNSJ, sendo o seu encenador.
Não podia ter sido melhor o começo.
Um texto de um Brecht ainda não comprometido com aquilo que veio a ser a sua doutrina mais radical, cheio de revolta, de energia, de poesia, de liberdade; uma encenação enriquecedora do texto, cuidada, fundada no trabalho de actor e na palavra e de uma beleza poética extrema; uma interpretação quase intocável por parte de actores que vêm trabalhando (na sua maioria) em conjunto e que se apresentam como elementos de uma orquestra, dando o máximo de cada um num trabalho de conjunto para a concretização de um todo, que é o TEATRO.
Citando Nuno Carinhas, na apresentação da peça, " E se todos os grandes dramaturgos são poetas, o Teatro é a materialização dos seus universos em expansão que entroncam nas nossas fantasias. Os actores são o corpo das palavras, os espaços cénicos são as paisagens das didascálias, os sons são a espessura do ar que a tudo e todos envolve - e sobre toda esta matéria inteligente e desejante escreveu profusamente o "pobre B.B.""
E foi assim envolvida que saí do calor da sala para o frio da noite, com o som dos tambores a bater ao ritmo do coração.
A rever no Dia do Teatro, a 27 de Março.


le roi est mort! vive le roi!

Nuno Carinhas



Ricardo Pais
No Porto, falar de TEATRO é falar do TNSJ, graças a Manuel Maria Carrilho, que em 1995, depois de obras de restauro, reabre esta sala de espectáculos, com Ricardo Pais como Director Artístico, até 2000, ano em que se demite por solidariedade com o Ministro que o nomeara. Desde então até 2002, o TNSJ é dirigido por José Wallenstein, que foi substuituído de novo por Ricardo Pais até 2008.
Desta vez, trata-se de uma despedida definitiva, aliada ao tempo de reforma, mas o nome deste Director Artístico ficará para sempre ligado à revificação do teatro no Porto, não só pelo lugar desempenhado, mas também por inúmeras actividades proporcionadas na cidade, de que saliento o Dramat (Centro de formação de dramaturgia) e o P.O.N.T.I. (Festival Internacional de Teatro do Porto).
Para o seu lugar está agora indigitado o encenador Nuno Carinhas.
Se o encenador Ricardo Pais nem sempre me satisfazia, o Director Artístico merece-me o maior respeito e admiração e por isso não podia deixar de fazer aqui o registo de uma profunda gratidão.
Quanto a Nuno Carinhas, pelo contrário, tenho já uma admiração indizível quanto ao seu trabalho como encenador. Resta-me portanto desejar o maior sucesso na difícil tarefa de dirigir um Teatro Nacional numa cidade culturalmente desfavorecida pelos poderes centrais.
PARABÉNS, Nuno Carinhas! E desde já obrigada pelas inúmeras encenações a que me foi dado assistir.
Que o Poder o deixe trabalhar.

sábado, 21 de março de 2009

DIA DA POESIA



Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)


Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores
De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama...
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama
Que eu fui nessa solidão...



Fernando Pessoa, Cancioneiro, Obra Poética, Ed Nova Aguilar, 1977



Um Pessoa que se aprecia mais tarde, quando o essencial vem ao de cima, como o azeite. O Pessoa que bebeu também a poesia Galaico-Portuguesa. Esse Pessoa.



quarta-feira, 18 de março de 2009

post- scriptum


Egon Schiele, 1890 - 1918




A janela rasga a paisagem de lés a lés. Passseio os olhos num horizonte perdido até encontrar o sabor da água que envolvia o teu corpo.
Não. Enganei-me.
Não é por aí que devo ir, que os meus olhos estão cansados.
A cegueira traiu-me os sentidos, por isso ergo as mãos para o chão, enfio os dedos na terra, indiferente ao estrume que se entranha no coração. Quero esfregar a pele nas arestas do granito para regar de sangue a tua cara de virgem. Não me venhas dizer que não são horas ainda. O relógio parou há uma eternidade sem que tenhas tido sequer a preocupação de mudar as cortinas. Por isso agora sou eu quem grita com os galos, de manhã, para te dizer basta.
É rasteira esta casa apodrecida onde me espreguiço pelas paredes sujas, planto cardos, invento rosas e bebo o leite que chupei das tuas mamas. A cadeira está no alpendre. O guarda-sol na varanda. O colchão está no sotão e a cama na cave. Mas é no fogão que o cheiro a sexo transborada das panelas, à mistura com azeite.





Ouve cá: não queimes esse corpo adelgaçado, que seria difícil encontrar outro assim.







É aqui que vou ficar até que o mijo me escorra pelas pernas, até que os dentes caiam de podres, até que o reumatismo me impeça de andar e os olhos se fechem de vez. Tu assistirás apenas à degradação do corpo, porque aquilo que tenho para contar atingirá o gume da lucidez que vai estilhaçar até os ouvidos dos animais. Rejeito a puta de vida ligada a tubos e máquinas que a medicina nos oferece e és tu quem vai cumprir o gesto fatal, neste lugar de ninguém.
Depois , algum pescador de pérolas acenderá uma fogueira na praia e cantará até que as cinzas voem com as gaivotas rasando as ondas fuliculares.







terça-feira, 17 de março de 2009

a las cinco de la tarde

para a Isabel Mendes Ferreira

García Lorca

que assim evoca Lorca, que assim se inscreve escrevente.

sábado, 14 de março de 2009

corpo do porto


(de quando as fotografias não eram digitais)

quarta-feira, 11 de março de 2009

nós e os outros

(da net)
os mortos já não se tapam
o sangue não deixa mácula
a merda não cheira a merda.


entre nós e os outros existe
uma tela virtual
asséptica
que banaliza a miséria
disfarça a solidão
encobre as metástases
ignora o cancro
entre nós e os outros há
uma falsidade no trato
uma ligeireza no afecto
uma bajulação enganosa
que enobrecem as putas.

dia-a-dia arrancarei um cabelo
para saber quantos aguento
nesta prisão infecta


terça-feira, 10 de março de 2009

procuro a nudez

Foto de Fabíola Narvaéz
retirar meticulosamente
uma a uma
as camadas de pele
que deixei
colarem-se ao meu corpo...
talvez encontre
aquela única
que me é
essencial.
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"e depois de uma a uma todas serão um casulo no chão. e no dentro fica sempre o que foi."

segunda-feira, 9 de março de 2009

malabar/ismos

funâmbula,

escrevo-te

num fio

sem rede.








este começo

voluntário

sobre a folha

resvala

a pique.

esvoaça
a pena sobre a folha
e cai
em lágrimas derretida.



domingo, 8 de março de 2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

manhãs



recordo as manhãs
geladas do Marão
para não me esquecer
de viver.

quarta-feira, 4 de março de 2009

sonho renovado


Foto de James Mackenna



dizer janela equivale a pousar os olhos na moldura das palavras que me sussurras e seguir a pálida intenção de desatar os nós que acorrentavam os cânticos de amor. desenhar uma tela gótica nas paredes caiadas da catedral que abre as portas ao nosso segredo. erguer as mãos, escadas acima, com a prudência de um livro que se abre para cruxificar uma vida isenta de memórias.
são assim os dias que te oferendo em gestos esculpidos por entre as veias do meu sonho.



terça-feira, 3 de março de 2009

um ano... quanto tempo?


(de Onde vais, Drama-Poesia?)

____________________________________________ agora,

os dias passam a escrever,
com o livro do mundo ao lado. Não fico só.

Entro nele. Hesito, e transponho a porta que me dá a página. Caio no poema oferecido a Dickinson. Levanto-me.
Impaciento-me
por não chegar ao mundo de hoje,

mas ainda não é tempo. Mais tarde,

à medida que eu amanhecer.

Maria Gabriela Llansol, Onde vais, Drama-Poesia?, Relógio d'Água, 2000

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