sexta-feira, 29 de maio de 2009

elogio da incerteza

Susan Sontag, por Annie Leibovitz
"Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves."
Sá de Miranda
teço e des
teço as palavras
ao ritmo do sol
ou do vento
umas vezes sirvo-me
delas, outras são elas
que se servem de mim
num jogo exibicionista.
e assim me vou
entregando paulatina
mente ao silêncio
que cobre o meu
corpo com o louco
requinte de medusa.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Passeio Alegre



Ela tinha o olhar perdido sobre o Douro. Ali mesmo naquela linha invisível em que ele desagua no Atlântico. O mar….



_________________Amar?____________________________



Por mais quilómetros que fizesse, era sempre ali que ia ter. Fosse manhã ou fizesse chuva, por uns breves minutos ou uma tarde livre, era como se fosse o carro a conduzi-la àquele lugar, cheio de memórias, desde a infância até ao passado recente.
É uma mulher que ultrapassou a metade da vida, num percurso sinuoso, atulhado de incidentes mais ou menos incorrectos, que sempre teve o seu porto de abrigo na cidade granítica onde agora reside, sem saber por quanto tempo



( O tempo de Ulisses? )



___________________________porque desprezava os planos quinquenais desde que abandonara a militância comunista, na sua juventude. E no entanto, tinha sido um tempo feliz, Esse, repetia ela com orgulho nas suas rugas.
Mas agora, neste presente da narrativa, ela decidiu dar ouvidos aos desígnios da natureza, há quem lhe chame destino, ou vontade de Deus_____ é-lhe indiferente a nomenclatura. Queria estar atenta. Não perder o mais pequeno sinal que fosse. Foi assim, que se deixou levar, sem qualquer preconceito para aquele Passeio Alegre (embora, às vezes, triste).
[trocadilho de gosto altamente duvidoso]
A verdade é que era uma expressão da burguesia medianíssima do seu berço, dizer-se que “iam dar o passeio dos tristes”, ao domingo, depois de lautos almoços que se seguiam à Missa do meio-dia. E era uma tristeza de fazer agonia, ver o parque automóvel portuense dos anos sessenta, escuro, todo em formatura, entre as palmeiras, com famílias inteiras a fazerem inevitavelmente as mesmas coisas:
_________________o pai a ler o jornal;
_________________a mãe a fazer crochet;
_________________os filhos a brigarem por uma língua da sogra;
_________________e a sogra a passar pelas brasas.



Certo é que aquele Passeio, Alegre ou Triste, sempre fizera parte da sua vida. Umas vezes por obrigação, depois por opção. E também por acaso. Muitas vezes para respirar o mesmo ar que o Eugénio, ou vê-lo à janela.
Ainda ontem lá estive e a encontrei, no seu automóvel, não por acaso preto, com as janelas abertas, ouvindo Barbara, com o olhar perdido sobre o Douro acima.



Desta vez, esperava por alguém...



segunda-feira, 25 de maio de 2009

dual/idade




























Fotos roubadas, de Maria José Quintela
conseguira eu
oferecer-nos
um sonho
talhado a cinzel
e não haveria
vento
que nos tolhesse
a música
dos corpos
e "um acordar de sintaxes e maracujás"

sexta-feira, 22 de maio de 2009

ainda a língua



Fotos de Inês MG, Maio 09



apenas
queria
que me conjugasses
na primeira pessoa
do plural.

depois
talvez a língua
fosse mais fácil
de explorar
e dançássemos

uma gramática
na cama desfeita.




quarta-feira, 20 de maio de 2009

Páginas Íntimas


Konstantin Kavafis, 1863 - 1933



Já eu descia a escada miserável
quando entraste apressado pela porta;
vi o teu rosto que não conhecia, e também me viste.
Ocultei-me então, para não ser visto uma segunda vez,
e passaste com o rosto na sombra,
perdido já na casa infame
onde não sentiste, como eu, nenhum prazer.


O amor que desejavas eu podia, no entanto, dar-te;
e o amor que eu desejava - diziam-me os cansados
e ambíguos dos teus olhos - podias dar-me.
Tudo era sabido pelos nossos corpos que se procuravam;
éramos compreendidos pelo sangue e pela pele.


Pois assim mesmo não deixámos, perturbados, de nos ocultar.



Konstantin Kavafis, Páginas Íntimas, Hiena Ed.,1994 (trad. João Carlos Chainho)




domingo, 17 de maio de 2009

o corpo (n)a língua

Camille Claudel

desata-me a sintaxe
com os dentes
e faz da minha língua
o barco da tua vulva.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

paisagens vazias






Lavadores, Maio, 2009
é em tardes assim
que eu morro
tranquila
enrodilhada nos sonhos
de accordéon
soluçando ao sabor
do saxofone
porque as pessoas estão longe
porque o silêncio me invade
e a solidão
se reveste de granito
morro assim
em tardes tranquilas
ângela marques, in Confissões Dispersas, Editorial 100, 2004

quarta-feira, 13 de maio de 2009

JE VOUS SALUE, ISABELLE!

Inaugura-se hoje a edição do Festival de Cannes, sendo a presidente do júri aquela que considero a maior actriz francesa contemporânea, Isabelle Huppert.

2009 é também o ano da comemoração dos 50 anos da Nouvelle Vague, que trouxe uma renovação/revolução ao cinema francês e europeu, em que se destacam realizadores como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Alain Resnais, Claude Chabrol e Eric Rhomer, entre outros.

domingo, 10 de maio de 2009

na rota da Índia

Foto de Inês M. G.




que farei com a garrafa de cognac que ficou meio cheia, meio vazia?





não partiste em busca de nenhum tempo perdido, que não faz o estilo dos teus pés calejados: uma casa vazia onde não já não está o teu cheiro, um esqueleto de mulher, subindo e descendo teimosamente as escadas, não vá faltar-lhe o ar. ela que te tirou das ruas de paris, que te arrancou das mãos dos costureiros blasés, que tu chupavas em troca de uma garrafa de vinho ou de uma nota para a dose do dia seguinte. ela que te pariu os filhos, que vendeu o frigorífico para comprarem a primeira câmara de filmar.



e eu quase ausente na tua vida. cheguei apenas a tempo de bebermos uns copos, de me escolheres para uma cena de um filme teu, de conversarmos sossegadamente junto à lareira do teu quarto. apenas a tempo de um beijo escondido e vulcânico. apenas a tempo de me dizeres que não querias viver com a consciência tranquila. apenas a tempo de te agarrares ao meu pé nu durante uma peça de Tchekov, como quem diz que vai embora.


talvez por isso, eu não acredito que voltes.

talvez por isso, eu acredite que nos vamos encontrar. aí.



quarta-feira, 6 de maio de 2009

cet obscur objet du désir

Foto de Nikola Borrissov

quero o desejo a latejar-te
no pescoço a respiração
atenta aos lábios inchados
quero aflorar-te a pele
apenas a percepção de que podes
tocar com um descuido
a ponto de desencadear
uma explosão.


por entre as chamas
o empregado trouxe-nos os sumos:
e suavemente as nossas mãos
roçaram uma na outra.


segunda-feira, 4 de maio de 2009

caminho solitário



corre veloz
este tempo
a caminho
da casa vazia.

sábado, 2 de maio de 2009

way


Sempre circular.
Mesmo as escadas não seguem um caminho liso. Elas voltam, revolvem-se em caracol infinitamente buscando o que em mim respira, o que em mim reluz. Não encontram nenhuma meta, felizmente, porque a roupa que trago varia conforme o sol.
...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Parabéns, Adriano: 54 anos de maio


(para o Adriano Teixeira de Sousa)

entre ontem e hoje
nem só os nossos cabelos
embranqueceram.

acolheste-me a um
universo de utopia,
deste-me a mão
para atravessar o rio,
falámos de marx e de gaivotas.
quando eu rumei para sul,
tu não viraste as costas
e esse foi um teu gesto maior.

entre ontem e hoje
a nossa língua continuou
a mesma,
os nossos olhares cruzaram-se
em ondas de espuma.
mas, entre ontem e hoje,
o teu corpo despede-se
velozmente deste mundo
e eu não vou virar-te as costas.

hoje dou-te as minhas mãos
e não será uma morte
cruel desatempada
que te mergulhará em Letes
porque em maio permanecerás
na bandeira que sempre
empunhaste.
entre ontem e hoje:
sempre


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