sábado, 30 de janeiro de 2010

poema a esta mãe



(ainda e sempre em memória da minha mãe)

pesponto o poema
com o fio de memória
que recebi em herança
no último beijo que te dei
já fria de saudade e
os olhos fechados à vida.
passam dias, passam anos
e é a ti que peço o corte
exacto da cambraia sobre a mesa
o alinhavo miúdo
a costura a eito. depois
o drapeado deslizando
sobre o colo desnudado
de um texto assindético
cai imponente na areia
de veludo bordada
com missangas douradas.
as tuas mãos, essas,  delicadas
estão acesas em cada palavra
que visto no crepúsculo
dos meus dias.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

carícia


Foto de José Rodrigues


cai a  pedra sobre o mar
e em silêncio afaga
os cabelos de Vénus.

( Obrigada pela foto, José Rodrigues)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

JanelaLivro - 2



À Espera de Godot, de Samuel Beckett


Agora debruço-me em detalhe à JanelaLivro, tentando vislumbrar a fronteira entre as tragédias que inundam os nossos dias e o trágico em outros tempos levado à cena, nos anfiteatros gregos, ao redor de Atenas, como homenagem dionisíaca. Em ambos os tempos o efeito de catarse era a salvação das almas. Desconhecemos e esquecemos facilmente a travessia no deserto que é esta passagem pela terra.terra. O confuso percurso em espiral que aparenta uma repetição infinita da história humana, mas que é sempre di/verso e igual. Duas páginas da mesma folha. Inseparáveis: vida e morte. A repulsa da absurda invenção dos deuses ou do virtual. Do meio. Da flor sem caule.
Aqui consciencializo a falsa lisura do texto e a impossibilidade de amaterializar a voz. Desescrevo os rascunhos em busca do grão de areia que impede a cicatrização das feridas. Ou o bisturi esquecido nas vísceras de uma criança. Trágico acidente. Palco da tragédia.
                         (__________________________________)
Sem didascálias.
AI (de) TI à espera de Godot! 


 

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

autofagia


Foto de Yuoko Ishii

vou fingir que é dor a dor que deveras sinto. e também a que senti: como a mesa de madeira onde apoio as lágrimas que não choro, como os estilhaços de vidro de Veneza que atirei da cómoda, como os lençóis de linho que jaziam desfeitos sobre a cama.
vou fingir que a memória está vazia, como um frasco de colónia, e que ninguém me esfacelou a alma nem o coração, vou fingir que desconheço os rouxinóis e que nunca li Romeu e Julieta. vou fingir que nunca amei: pelo menos, nunca ofereci nenhuma rosa, nem tão pouco o meu colo para afagar espinhos transparentes.

nenhum caminho se faz duas vezes e nenhuma palavra chega para dizer "te". por isso duvido da minha respiração e prefiro pisar o palco com os olhos vendados para não cair no erro de me ver ao espelho e morrer de susto com a solidão tatuada no rosto.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

JanelaLivro - 1


 Johannes Vermeer,  1632 - 1675






Conversei alargadamente com Mª Gabriela Llansol, sob o olhar austero de Carolina Michaëlis, que posava imponente debaixo de uma janela verdadeira. Ambas considerámos acerca da inutilidade das janelas verdadeiras e do seu malefício para o crescimento da língua, no jardim das delícias.

Sugeri que o diálogo fosse um microscópio da nossa fidelidade ao texto abíblico, troca de ideias que podiam divergir e apenas cruzar-se em nervuras de folhas lanceoladas, uma em cada mão. Assim a verdade de uma janela que foi desenhada para não poder fechar-se contra-diz a outra verdade de que uma janela pode ser a fronteira entre o dentro e o fora.  Ambas, no entanto, são inúteis para nós que queremos das janelas apenas a imagem metafórica de um limbo. A nossa janela passa assim a ser o suporte do Livro...  JanelaLivro...
Desidério nascido numa manhã de inverno, algures entre Jodoigne e Ramalde, por entre ruídos histriónicos de mulheres  medievas, de nariz curvado até ao chão, gritando em volta de uma fogueira a morte breve de poetas e aprendizes, ou qualquer outra sorte de indigentes.
JanelaLivro será escrevenciado nas fissuras do tempo, com material não reciclável, porque a sua efemeridade é condição essencial à vida-morte, sob pena de tornar-se um material digital lançado no universo tecnológico, global e asséptico, onde a espessura dos lugares bem como a das palavras se perde em ondas hertzianas invisíveis a olho nu. E onde toda a nudez é castigada. JanelaLivro irá cheirar a lixívia, no início, por ser de lavado. O tempo encarregar-se-á de lhe dar o cheiro a jasmim e a jaz(z)-te. Ou apenas o cheiro ao suor de quem o lê.
Cuidaremos de fornecer a intertextualidade suficiente para impedir uma decifração nanométrica em tempo real. Absolutamente tisana. Infindavelmente rubra. Gabriela convocará S. João da Cruz e Eckhart, quanto a mim navegarei sem rumo, nem remo. Ao som de Miles Davis e Jean Sébastien Bach (en français). Porque embora muito apoucadamente, partilho da indefinição linguística entre a que me é pátria, ou mátrea, e a que me é moldura (não de adereço , mas de molde), modulante da Weltanschaung. Bem como das paixões.
Para já vou varrer o quintal.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

monólogo de um artista quando velho




Abre a janela. Não importa a tempestade.
Preciso de espaço para tanta memória, não consigo respirar. Quero o vento na cara, esta carcassa nua à chuva. Eu sei que tenho medo da prisão, odeio as portas fechadas desde pequeno.  Já li “O Muro” há muitos anos e quero que o Sartre se foda mais o seu existencialismo de merda. E a Beauvoir também. Que se fodam os dois que bem precisam. Eu não quero a minha liberdade interior. Quero ar livre. Quero casas sem paredes. Quero ter tanto espaço à minha volta que não saiba para onde ir. Quero perder-me no horizonte dos olhos de um marinheiro qualquer, passear num cais sem saber se parto ou se fico, emborcar uma garrafa de vodka e acordar no dia seguinte em Moscovo a tiritar de frio. Quero dar um murro no focinho do Kafka por ter escrito a história do "Artista da Fome", enfiado dentro duma jaula.
Vês estas mãos? Nunca mais vão pegar numa puta duma folha e duma caneta para escrever o caralho de uma só palavra. Ouviste? NUNCA MAIS. Não olhes para mim com esse ar de sabichão, sua bichona de merda. Se eu digo NÃO, é porque NÃO.
Tenho os miolos embebidos em álcool, os pulmões fodidos com os charutos, as mãos trémulas com Parkinson e os olhos mal te distinguem a boca. Eram lindos esses lábios, seu filho da puta. Mas agora não quero mais nada. Vai. Arruma a tua trocha e pisga-te daqui para fora. Acabou o teu tempo de antena.
Ah... poupa-me essa lenga-lenga de que preciso de companhia. Eu sei que o meu tempo está a chegar ao fim. E quero estar sozinho quando a gaja chegar. Quero olhá-la bem nos olhos, por isso tenho que os poupar, quero ver-lhe a cara e dizer-lhe: “então, filha, fizeste boa viagem até aqui? Calhei-te eu na rifa, hoje? E que tal? Achas que vai ser fácil? Pois é, tens razão. Fodido como estou, vai ser canja. Mas foi isso mesmo que eu quis, sabes? Não te dar muito trabalho. Por isso tratei de viver a vidinha toda, chupei-a como se fizesse um broche e agora estou regalado... mas tu gostas mais do sofrimento, não é? Ahahahahah... não vais ter esse prazer, minha querida. Precisavas era que te fosse ao cu, mas já não tenho forças nem para isso. Vá, faz lá o teu serviço rapidinho que eu estou farto deste filme”.
Então que dizes? Estou ou não estou preparado?
Abre a porra da janela, caralho! Quero lá saber da pneumonia. ... não consigo respirar...
Abre................ abr.................................................. aaaaaaaaahhhhhhh.......................
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