domingo, 28 de março de 2010

a incrédula idade


Michelangelo Caravaggio

das religiões estagnadas
em dogmas ditos intemporais
nenhuma veste o manto da inocência.
por isso prefiro a fugacidade
de um gesto de amor.




não há caminhos sem escolhos
nem rosas sem espinhos.



se a folha apenas tivesse
uma face
nenhum poema poderia
ser escrito.


domingo, 21 de março de 2010

Palavras assassinas

Bruno Zhu


Ela vivia rodeada de palavras: tropeçava nelas, e afligia-se com receio de as ferir. Cuidava delas como se fossem gatos de estimação, dava-lhes comida apropriada, tinha sempre água fresca à mão de semear, mudava a areia para as necessidades e organizava toda a sua vida em função delas. Tinha mesmo, no quarto, um altar que decorava diariamente com flores brancas, incenso e velas perfumadas. A música ambiente era sempre apenas instrumental, não fossem as ditas palavras terem um ataque de ciúmes. E quem a visitasse, já sabia que não podia falar.
Aquela casa era um monumento de silêncio pesado. Sentia-se que ao mais pequeno descuido tudo podia desabar em catástrofe, porque o poder que ali reinava era sufocante. Aurora, era assim que se chamava a escrava das palavras, espalhava folhas brancas pelo chão para que estas pudessem escrever-se sempre que quisessem, mas estava proibida de tomar a iniciativa.
Aurora usava as palavras apenas fora de casa, para fazer compras, mas com o passar do tempo foi sentindo que uma ou outra se lhe escapava da memória. Pensou que era da idade e começou a preocupar-se com o futuro. Pensava agoniada no que seria a sorte das suas queridas palavras no dia em que ela ficasse acamada, porventura, e não pudesse mais tratar delas. Quem a conhecia nas suas saídas habituais percebia que o seu ar era cada vez mais sisudo e ansioso, mas não se atrevia a fazer-lhe qualquer pergunta porque sabia que a resposta seria lacónica e nada esclarecedora.
Inevitavelmente chegou o dia em que Aurora não saíu de casa à hora habitual. E os vizinhos, o padeiro, o merceeiro, o homem do talho, a peixeira e a D. Natascha, da papelaria, ficaram a tentar adivinhar o que teria acontecido. Não chegavam a acordo, porque cada qual tinha a sua perspectiva do problema, cada qual pensava ser o detentor do segredo de Aurora e afinal ficaram apenas com um emaranhado de hipóteses, sem saberem se tinham algum fundamento. Decidiram esperar pelo dia seguinte para tomarem alguma atitude.
Passou um dia. Passaram dois. Passaram três e mais não podiam passar, porque desapareceria o efeito simbólico da história. Depois de cada um fechar a sua loja, juntaram-se, foram ao posto mais próximo da Polícia dar conta do caso e acompanhados de dois agentes, como é habitual, foram em direcção a casa de Aurora, para resolver tão estranha história. Claro que tocar à porta foi infrutífero e os polícias usaram da sua autoridade para a abrirem da mesma forma que fazem os assaltantes, com um cartão de crédito da D. Natascha.
No chão da sala encontraram o corpo de Aurora amarrado e sufocado de folhas de papel todas escritas e palavras pintadas em todas as paredes. Ficaram sem perceber o que tinha acontecido, mas fizeram-lhe um enterro condigno.


quarta-feira, 17 de março de 2010

assim

Tom Cubbage

há  dias assim
que não amanhecem 
à nossa medida
a roupa aperta-nos
como um colete de forças
o coração explode
e o que nos rodeia
está a milhas de distância
da alma que temos

há dias assim
adversários
de quem somos
em liberdade escandalosa...

em dias assim
vira as costas ao tempo
despe-te dos farrapos 
e das boas maneiras
estende-te na areia
, bem junto ao mar,
e deixa que seja o sol
a lamber-te as lágrimas.

todos temos direito
a um corpo inteiro
até ao último
dos nossos dias.





sexta-feira, 12 de março de 2010

magma textual



há palavras que me são magma: textos teus que não devia ler, mas continuo visitando, sem conseguir aferrolhar uma porta que foi fechada faz tempo. e queimam. e guardo palavras que ficam por dizer, abortadas na minha alma crepuscular. afogadas em lágrimas que ficaram rio abaixo em direcção a um mar que se diz salgado delas, mas foi espelho de silêncios partilhados.
agora que tudo resvala diante dos nossos olhos estuporados, agora que o efémero tomou conta do quotidiano mais distraído, agora que conheço as dobras mais recônditas das mortes, inesperadas ou não, quisera também matar-te na minha memória. e não consigo.
por mais que não regue os vasos, por mais que arranque as raízes, por mais que engula veneno a força deste quisto avança em forma de metástase resistente à quimioterapia hipertextual e adormece comigo, no horizonte montanhoso agrafado aos meus olhos.
consultei dicionários e não existe vocábulo que designe tal persistência do gesto: resta portanto estender-me sobre o fogo e aguardar que a terra vomite lava sobre a face dos meus pronomes.

terça-feira, 9 de março de 2010

os anéis e os dedos

                                         Fotografia de Desiree Dolron


dizer que  sinto
o tempo
escorrer por entre
os dedos
é tão baço
que prefiro
deixá-los
cair juntamente com
os anéis.         

(obrigada Isabel por me teres dado a conhecer a fotógrafa)      
                           

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