quinta-feira, 29 de abril de 2010

a coffe without Pina

Pina Bausch, Café Müller

                                                              (no dia mundial da dança)

As cadeiras ficaram espalhadas, tal como ela as havia deixado. Dominique está sentado no chão, encostado à parede vazia. Cada vez mais branca. O desencontro fora marcado para aquele sábado ao cair da noite. Naquela Primavera.
De um lado, Pina fazia perguntas, muitas perguntas sobre riachos e as árvores, sobre o vermelho e o sol, sobre as tempestades e o tempo de Chronos.
Do outro, rente ao chão, Dominique rastejava como uma serpente ou pulava como um tigre. Cavalgava nas costas de uma cadeira. Tentava penetrar na parede imóvel. Suava. Chorava. Uivava.
Ela convocou a companhia de dança. Chegaram eles e elas, clowns e manequins, esqueletos e ossadas. Havia também soldados da Bósnia, do Afeganistão e do Iraque. Havia xiitas e militares russos que tinham assassinado todos os suspeitos de subversão. E havia um dissidente chin~es. Apenas um.
Todos deviam coreografar as suas vidas naquela palco improvisado entre o Paraíso e o Mar. Não havia lugar a monólogos. O desafio era criar a Força Sagrada da Primavera, uma última vez, antes do Apocalipse.
Quando o espectáculo acabou, o público partiu inquieto, Dominique estava caído, ofegante e levantou o braço em direcção à parede vazia, branca, murmurando:
Pina!....





domingo, 25 de abril de 2010

Era uma vez um cravo...


________________________________________ e contrariamente aos contos tradicionais esta História não tem moral, e tem um final aberto _______________________________

sexta-feira, 16 de abril de 2010

desfragmentação




De tempos uma tempos , OU em tempos assim , labirínticos Não, ensarilhados pingos literalmente , Cheios de NÓS CEGOS ( invisuais OU, se preferirem ), Preciso de calafetar As Janelas e cobri - las com Papel de Parede , Que Não Seja Muito Importa kitch , Mas Que permita processar OS Imagens das pixeis , OS kits de Informação, o lixo , pólens OS , a chuva ácida , OS Publicitários pontos, como Taxas de demagogia galopantes e Sobretudo uma indiferença . Preciso de processar Dentro de Mim uma indiferença Instalada Por peso e medida, infinitos em Corredores de Que Uma babel Pensamos Linguística Não Ser , Que Estamos Esquecidos das Duas faces da Moeda MESMA , não significante e do significado. no entanto o valor dos lexemas cai um dominantes o pique, Diariamente , bolsas NAS Que Mundo, de tal forma Que OS poetas correm o Risco de Desemprego Por Falta de matéria prima .

Quanto a Mim, Que Não sou poeta , Alimento -me de conversa Chã, procuro abençoar o sabor da fruta vermelha , esgueiro - me por vielas esconsas , Onde Encontro tão velhos e palhaços , a tentar respirar , repousar e reviver .

sábado, 10 de abril de 2010

poema tardio

Julia Margaret Cameron



(para o pai das minhas filhas)

não importa que não seja
tempo de diospiros
não importa que os meus dedos
estejam roxos de sangue
não importa que a minha
aldeia tenha um sino abandonado
ou que o sorriso me tenha
caído por entre os socalcos de vinhedo
não importa que os figos estejam podres...

o que importa, o que verdadeiramente
importa é que as nossas filhas
adormeçam no teu colo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

JanelaLivro - 3

Bruno Zhu

a Janela esmoreceu com o tempo alinhavado em volta do parapeito, enquanto ela passeava pela sala em busca de um raio de sol entornado sob a mesa, num gesto desastrado da mão esquecida do cigarro que segurava displicentemente. um fio condutor da memória: o quarto escuro, enorme, onde dormia sozinha. os dias, os meses, os anos que passavam sem que uma palavra sequer fosse trocada entre pares. havia uma língua distante, de adultos, que a assustava e fascinava e a sua, terra de experimentação, que manobrava aleatória.
assim o esforço dispendido na troca de palavras de uma língua para outra era tão doloroso que o manto de silêncio se abateu sobre si até ao esquecimento total dos malabarismos que praticara na idade verdejante.
agora não conseguia ter a certeza da sua existência, porque não se revia na fala de ninguém. retomara apenas o hábito malabar de deslizar palavras pelo corpo e com elas fornicar nos dias de chuva ou de sol, indiferente à bipolaridade climática. fora de si, apenas reconhecia os gatos e as janelas.

o Livro crescia a olhos vistos, de cada vez que o regava com a água de lavar os dentes.

visitantes da babel