sexta-feira, 21 de maio de 2010

e agora?

Paulo Eduardo de Carvalho, 1964 - 2010


ALITERANDO SILÊNCIOS: COMPOSIÇÕES

(Para o Paulo Eduardo de Carvalho)

Não queres fazer o silêncio
Comigo?
Sobressalta-se um pouco uma varanda
e acrescenta-se: vento

Por sobressalto: um vaso mal de frente
a estas flores,
ou um cinzeiro de pequeno porte,
ausente de cavalo,
e algum
desiquilíbrio nessa mesa

Fazemos o silêncio,
se quiseres, 
e assim mantemos tão aliteradas
as primeiras palavras

Está bem assim o vento,
não lhe mexas,
fica-lhe bem a asa sibilante
e ajuda à cinza que se alastra agora,
que transborda de lado na varanda
e desfaz a aridez dessa
roseira

Traz-me um pouco de paz
e ajuda-me a compor
esta paisagem

Vem fazer um silêncio,
porque o resto:
azul de som
- como em sereno palco

Ana Luísa Amaral, in As Delícias do Verbo




domingo, 16 de maio de 2010

elogio da opacidade




tenho sede.
falta-me a transparência da água. do granito. da malga de leite sobre a mesa. e também o silêncio das árvores, das ovelhas nos prados, do sino da aldeia que não é minha.
falta-me o sossego do mar e a inquietude de amar.
por isso esfrego as palavras com sabão, meto-as na lixívia, deixo-as corar sobre a relva e quando estiverem completamente opacas de brancura, entreter-me-ei a desfolhá-las sobre o chão para me cobrirem o rosto de uma desvergonha explosiva de mentiras.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

espécie de arte poética



é demorado por vezes
tortuoso o leito sintáctico
que percorre o poema
desde a foz
até à fonte mais rochosa
onde a palavra é sílaba
pouco mais que
fonema gemido
em êxtase intransitivo.




quando enfim
atinge o mais alto
cume da montanha
explode em labaredas
vertiginosas e
chora mar.

sábado, 8 de maio de 2010

Personagens fracassadas




A - quem te mandou vir a minha casa?
Lady-Blue – Ah... bom! Até já me trata por tu!
A - O que queres?
Lady-Blue – Tinha saudades suas. Imagine!
A - Pronto. Já me viste. Agora desanda.
Lady-Blue entra sem pedir licença.
A - Estás cada vez mais insuportável e intrometida.
Lady-Blue – Você tem ideia de há quanto tempo não falamos?
A- Realmente, tenho estado bastante sossegada. Pelos vistos acabou-se a minha paz.
Lady-Blue - Não se finja de mazinha. Sabe que eu a conheço como ninguém.
Silêncio. Vão sentar-se no sofá da sala.
Lady-Blue – Diga lá porque tem andado fugida.
A - Muito trabalho. Falta de tempo para aturar personagens falhadas.
Lady-Blue – Uiiii... Essa doeu. Parece que voltou aos tempos da Ingrid chamada Fausto, ou lá...
A - É ao contrário, sua besta. Fausto chamado Ingrid.
Lady-Blue - Credo! Tanto azedume! Não acha que isso será falta de...
A - peso... Depende. Se for feminino, até que não calhava mal.
Lady-Blue – Então, eu sou a feminilidade em pessoa.
A.      solta uma gargalhada.
Lady-Blue – Onde está a graça?!
A - Tu achas que eu me converti à virtualidade?
Lady-Blue – Mas eu existo. Foste ... foi você que me criou.
A - Ó minha filha! Existes o tanas. Quando é que vais meter nessa cabecinha oca que eu pensei em ti, deste-me jeito naquele espectáculo de merda que eu fiz, mas deixei-te cair. Não me serves para mais nada. Ponto final parágrafo. Fim. The end. Cappicce?
Lady-Blue – Você já percebeu que essa forma de agir comigo, essa violência, essa agressividade barata é uma maneira de descarregar em mim aquilo que tem vontade de fazer com as pessoas que a rodeiam?
A - Ah!... agora deste em minha consciência, ou candidatas-te a uma cena do Auto da Alma? Eu não tenho o génio do Mestre Gil. Ninguém tem, aliás.
Lady-Blue – Claro que tinha que mandar a sua boca de expert!
A – Que canseira, mulher! Desampara-me a loja, por favor!
Lady-Blue – Ops! Sinto um cansaço que não conhecia...
A – Idade, minha filha!
Lady-Blue – Não acredito que esteja a sentir-se mal com a idade! Isso não é seu.
A – Não é que me sinta mal, mas reduzi substancialmente o meu grau de interesse pelas coisas e pessoas em geral. Limito-me a observar a vida. Estou sentada na primeira fila. E confesso que preferia assistir ao Hamlet, ou então ao Godot... O Pinter, sei lá: tão escorreito nos diálogos, tão liso de artifícios. É isso, estou farta de artifícios. ... Já estou a falar demais.
Lady-Blue – Não. Continue. Já que não escreve nada para mim, ao menos aprendo umas coisas. E vou conhecendo melhor a minha criadora. Sorriso.
A – Bah! Não tens nenhuma frase melhor para dizer. Que coisa tão foleira!
Lady-Blue – Eu não costumo falar por mim. É você que escreve os diálogos.
A – Isto é uma loucura. E não tem saída. Será que não consegues entender isso. Não há plot...
Lady-Blue – Não há o quê?
APlot. É inglês e não gosto de nenhuma tradução para esta palavra. Argumento, história, enredo... não é nada disso, embora também  seja.
Lady-Blue – Não há enredo onde?
A – Aqui, porra! Nesta merda de diálogo, de conversa vazia... Quero acabar com isto! Foda-se!
Lady-Blue – Mata-me.
A – Enfim, disseste uma coisa acertada.
Lady-Blue  - Mas tens que encontrar uma motiovação. Certo?
A – Um surto de esperteza, agora!
Lady-Blue – A criatura tem sempre alguma coisa do, da criadora... Sorri.
A – Não preciso de graxa.
Lady-Blue – Então, vais matar-me ou não?
A – Vou sim. Podes crer.
Lady-Blue – Como? Porquê?
A – Vou pensar no assunto. Vaza daqui.
Lady-Blue sai sozinha e A começa a escrever freneticamente no computador.

domingo, 2 de maio de 2010

cantiga d'amiga




Tenho saudades
Meu sorriso do TUE Que era
e se despenhou uma quinhentos metros
Acima de altitude do Douro.
tentaram reanimá - lo ,
segredaram - LHE poemas de amor,
cobriram -no de flores
Mas Ele estava definitivamente
morto , sem batimento cardíaco
e declarada morte cerebral .
Apenas estava em Visível
Coloridas Fotografías ,
Guardadas religiosamnete
NUMA tarde de Inverno .

QUANDO que saudades
Olhos me afogam os,
ABRO uma mala Onde o guardei
UM poema leio - LHE
do cancioneiro medieval
o sorriso e responde -me
Do fundo do silêncio Seu :
Senhora tan contraditório , tristes
Meus Olhos Por ben Meu vos ...


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