terça-feira, 28 de setembro de 2010

ouro sobre azul



desconheço o espírito
da linha recta assim como
a matéria do poema
e no entanto é de azul
que me alimento.
o ouro está no silêncio
da mão.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

os dias que faltam



caminho de olhos fechados
mãos vazias pés descalços
sem destino nem embaraço
sustentando a cada passo
a liberdade resgatada
em cada gesto
em cada dia
do resto
dos dias
contados.

domingo, 26 de setembro de 2010

QUE ESCADA DE JACOB?


(a meu Pai, que hoje faria 90 anos, pela mão de
Ana Luísa Amaral)

Na noite em que a lua foi pisada pela primeira vez,
ainda a preto e branco a sua imagem,
escafandros brancos, o refelexo do sol nas lentes baças,
a escada que descia, o pó sem gravidade que a bota levantou,
tão branco e mágico,
nessa magia de duas da manhã, hora local, daqui,
estavas comigo.

Comemos sopa às quatro da manhã,
e eu vejo ainda aquela sala, a mesa lá ao fundo,
o sofá grande, e eu de onze anos a sentir-me grande,
porque assim me fazias e falavas.
A lua a ser pisada: humana condição
pela primeira vez.

No dia em que as ciências em exame mais longo se faziam,
eu sem saber o grau das equações, que incógnitas havia
a resolver, era Verão e o sol do lado esquerdo,
à esquerda da imagem tripartida à minha frente,
teimando-me a ignorância,
nessa angústia menor de três da tarde,
sabia-te sentado atrás de mim, na carteira de trás,
à espera, atravessado de nervos e ternura.
Passei. E eu vejo ainda o teu sorriso,
o pó sem gravidade no olhar, e eu, quinze anos
a sentir-me grande, porque assim me parecia.
Uma galáxia à solta pelo corpo e o calor do sol
tão transparente.

No dia em que o meu corpo se atravessou de nova dor,
quase rasgado a meio, a luz do sol entrando
pela janela antiga, os tectos altos, brancos,
batas como escafandros,
nesse dia tão longo em que o sol caminhou até ao fim,
para do fim nascer, estiveste sempre lá.

Vejo-te ainda encostado à ombreira dessa porta alta,
a voz dos escafandros tentando sossegar-te,
e tu, a soluçar baixinho, retalhado entre amor
e alegria.

Na noite em que a lua te deixou,
em que deixaste de sentir a sua luz, o mais trémulo toque,
tudo o que assim nos faz: frágil, imensa, humana condição,
na noite dos fantasmas e escafandros cinzentos,
eu não estava contigo.

A que sabia a sopa que comemos?
Que escada de Jacob?

Ana Luísa Amaral, Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2007

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

gaivota

( relendo A Gaivota, de Anton Tchekov)

disparo palavras
eloquentes
sobre a gaivota,
de uma só rajada,
e ela devolve-me
o sangue cuspido
nos olhos
em pétalas rubras,
à hora em que o sol
se afoga
amareladamente
no horizonte do palco.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

crepúsculo




Aproximam-se os dias do silêncio
Pé ante pé
Numa folha que cai desprevenida
Numa gota de chuva que desliza no ombro.
A fadiga abateu-se sobre
O chão da cidade e as pessoas
Cederam à fúria do verbo:
Por isso a cortina se levanta
E não há actores em palco.
Na plateia os espectadores
Escutam o batimento
Do coração da terra.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

JanelaLivro 5

Didier Sévanne

Não sou de fechar janelas. Já as portas apenas abro em momentos solenes. Entrar e/ou sair não é coisa leviana, nem que se faça várias vezes ao dia, como se bebe um copo de leite fresco ou se come um naco de pão, mesmo que o diabo não o tenha amassado. Mas a janela deve manter-se aberta, sob pena de sufoco, ou de cegueira irreversível. Porque há sempre dois lados em cada viagem, em cada carro, em cada paisagem: o lado de fora e o lado de dentro. O lado do precipício e o lado do medo. O lado do predador e o lado da presa.



Não sou de fechar janelas porque estou sempre dos dois lados do Livro: o de quem escreve e o de quem lê. Sinto a pele a rasgar-se, a vertigem do funâmbulo, o zumbido do giz sobre a ardósia.



Entre a Janela e o Livro eu escolho abraçar os dois, ainda que me estilhacem os olhos.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

neste mundo...





Neste mundo em que vivemos
Custa a acreditar que as flores
Continuem a colorir
A alma de poetas e crianças.


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