segunda-feira, 29 de novembro de 2010

de amore

Foto de Eva Melkowsky


tu falaste-me do tempo
mas eu só reparei
na limpidez dos teus olhos.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

vaso partido

Foto de Clementine Catton


pus-te um verso
à janela reguei-o
com lágrimas
mas o gato atirou-o ao chão.

agora vais ter que varrer
os pedaços da metáfora
e deitá-los no palavrão.

domingo, 21 de novembro de 2010

a mão



tinha-se estilhaçado
o rosto durante
sete anos de alheamento
até que a lua desceu sobre a mão
e encontrou uma pele
ainda que levemente enrugada
seca de flores ou anémonas:


arrastou-a até à árvore
mais próxima
e deixou-a ali
agarrada a um tronco
que não tinha cintura.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

id



eu sou eu
não sei quem é
apenas afasta
todas as possibilidades
de enunciação
porque te recuso
objecto.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

subway




Não escrevo aqui.
Porque não consigo rasgar a puta da tela
Nem foder os pixéis
Nem triturar as teclas.
Sai tudo limpinho,
Sem cheiro nem rugas
Sem suor nem lágrimas:
Asséptico
Jeuniste
Comme il faut
Como quem saiu d’um SPA
Ou entrou num filme HD.



Eu não tenho chão aqui.
Escolhi a profundeza
Dos esgotos
Da cidade que me pariu.

sábado, 6 de novembro de 2010

às vezes...

Adeline Ferré


"Se não fosse a imposição do trabalho, muito raramente estaria com outras pessoas, e só em condições especiais. Cada um deveria partir para seu lado e canto, durante anos de solidão, ou seja, durante o tempo necessário de fazer outros tipos de conhecimento. É preciso ter outras relações. As relações entre os homens são de matéria plástica, opaca, violenta. O olho vê apenas o outro olho; o dente esbarra com outro dente."

Maria Gabriela Llansol, Um Arco Singular, Assírio&Alvim, 2010

... às vezes encontro-me assim com Gabriela, fora do tempo, longe no espaço. e tão próximas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

auto-retrato

Egon Sciele, Auto-Retrato



cada dia
chegava mais cansada
e pousava os ossos
depois da carteira
em cima da mesa de verga.
bebia um whisky
fumava um charuto
e adormecia
estupidamente.
cada dia
pousava mais ossos
em cima da mesa de verga
e demorava menos tempo
a adormecer
cada vez mais estupidamente.
um dia os ossos
já não cabiam
em cima de mesa de verga
e espalharam-se pelo chão.
já não conseguiu recompô-los
e a estupidez instalou-se
definitivamente
na sua cabeça.
foi disso que morreu:
ataraktos.




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