domingo, 6 de março de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
nòstos
Regressei a Ítaca, mas a fachada estava renovada,
o interior também. Nem sinais da guerra de Tróia: Penélope
vendia-se barata, nas esquinas manhosas o interior também. Nem sinais da guerra de Tróia: Penélope
da rua da Vitória que um dia foi contra os franceses,
não sendo eles bárbaros nem ciganos.
Não vi restos de teia destecida, porque
o frio é muito, ela está velha e precisa
de agasalho. Por isso,
olhando para a calçada de granito
com relva, senti o cheiro
de um porto que, afinal antigo,
jazia adentro de mim. Ouvi
também palavras que
me roçaram o corpo e me
deixaram esvoaçante, no
limbo dos detritos da história.
Já vão longe os vinte anos de distânci
a, estranheza entranhou-se e
a odisseia continua
sem regresso proustiano
ou espera agónica.
Depois de um lar de velhos
que o fogo me ajude a escapar ao Hades.
sábado, 22 de janeiro de 2011
vadiagens
Foto de Fátima Ribeiro
Eu gosto da minha gata. Não gosto do meu umbigo. Nem gosto das pessoas que passam o tempo a olhar para os seus umbigos: é uma coisa muito pequenina, anda sempre encoberta ou quase sempre e sofre de falta de ar.
A minha gata não pára quieta, adora olhar para os pássaros e imaginar que os vai comer a todos, tem o faro apurado e distingue à distância um bife duma posta de pescada. Só tenho pena de não poder oferecer-lhe um pátio, um quintal e muitos telhados para ela ser completamente vadia.
Mas um dia ainda hei-de descobrir um canto qualquer para sermos vadias as duas e miarmos de cio nas noites de lua cheia.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
JanelaLivro 6
Não sei bem se são palavras que me faltam ou o brilho nos olhos de tempos antigos. Talvez não passe por aqui a rota do chá e o fio de ariadne se tenha transformado em feixes hertzianos, em direcção a uma outra galáxia, mas o certo é que o despojamento de uma djellaba condiz melhor com o silêncio do novo império de sentidos simbólicos.
A rosa de Jericó instalou-se na folha, acastanhou as paredes do Livro sagrado e o vento rasgou as cortinas da Janela. Não se vislumbra o rasto de uma peripécia porque a doxa domina a cidade. Por isso o tempo escasseia para ficar na soleira da porta a conversar.
Muito depois de amanhã, quando só formos memórias esbatidas, alguma gota de água dará lugar a um mar. De azul (talvez).
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
(de) passagem
entre Orfeu e o quotidiano
há apenas uma nesga de rio
desenhado a nanquim. gaivotas
perdidas na cidade de granito,
gente travestida de felicidade
urbano depressiva, panfletos
rasgados de uma greve falida.
e há funâmbulos que atravessam
a fome, guitarras sufocadas de
nevoeiro, pontes entulhadas por
suicidas apressados.
entre Orfeu e o quotidiano
eu escolho uma ceia solitária
e brindo à literatura crucificada.
uma só taça sobre a mesa.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Natais
Fotos da net
as luzes mirraram os pinheiros também
ou então sou eu que tenho névoa
nos olhos e os poemas saem-me desajeitados
pindéricos de plástico tipo loja de chineses
natal em Tiananmen Sarajevo ou Dachau
natal em Guantanamo em África em Lisboa
Casal Ventoso Rua Escura debaixo de
cartões empilhados com cheiro a cobertores
que só existe na memória entorpecida
por uma garrafa de tinto martelado.
e no interior de casas aquecidas
há quem pose
de costas voltadas ou sorrisos amareladamente
caridosos como quem volta a distribuir maços de tabaco
a sossegar a consciência ou a vender a imagem
de um portugal dos pequeninos que tinha propriedades
estropiadas por um arsenal minúsculo mas eficaz
a pequenez ficou-nos tatuada a desvergonha
dos governantes também. agora só
falta saber até onde chega
o verbo
"vai-se andando".
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Ferida(s)
Frida Khalo
a fractura exposta do
poema gangrenou-me
a mão e o que restavade inocência
despenhou-se pela encosta
desta terra tão atávica
quanto florescente.
há dias em que fumo
para esquecer
e outros em que leio
para celebrar.
no entanto são sempre
os coágulos de sangue
as metástases do frio
que me entorpecem o caminho
na tentativa de derrubar
a lareira que nós acendemos.
a diferença é que agora já não
esperamos o verso dos deuses
apenas talhamos afincadamente
sílaba a sílaba
o gesto suave dos olhos
em direcção ao outro lado
do espelho.
sábado, 18 de dezembro de 2010
a voz do coração
Foto de Annie Leibovitz
entre mim e o meta
texto irrompe agora
a tua voz redondatexto irrompe agora
onde me encosto
de olhos fechados
à espera de ouvir
uma consoante afável
um assobio de primavera
ou apenas o sussurro da água.
entre mim e ti
irrompe agora
o poema por escrever.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
2 anos de babel
a todos os que aqui passaram, passam e possam vir a passar...
[é só a fingir (crise oblige), mas é do coração. a 16 de dezembro de 2009, alguém que admiro disse que "um ano no mesmo espaço, para mim, era muito tempo". era verdade, sim senhora. mas agora já vão dois e mais virão (enquanto as palavras me valerem a pena) porque chegou o tempo de eu ficar comigo. o blog segue dentro de momentos.]
sábado, 11 de dezembro de 2010
eu gustavia

Mathilde Monnier, em Gustavia
Lendo o texto de Gustavia, em Angeiras)
(para a Ana Luísa Amaral)
do corpo, da língua, da mulher que fala em gestos des
construídos étant donné que l'identité
n'est pas figée sur le sable
nem as pernas abraçadas ao tronco
do mar salgado intertextual
mente ocidental metalizada
comme quoi une femme
reconstruit l' espace
e a espécie nos fios que tecem
as malhas caídas em vidro
de montpellier ao porto.
e eu lembrada de marias
três vezes três noves fora
nada.
domingo, 5 de dezembro de 2010
memórias à solta
Paul Klee, Angelus Novus
atormentam-me memórias
assim aliteradas alteradas
perdidas dos seus caminhos.assim aliteradas alteradas
cães vadios gatos de telhado
sem zinco quente
emigrantes órfãos de língua
alheia como quando soldados
directamente lançados
de trás dos montes para as áfricas
a matarem pretos porque sim
ou veteranos sobrevivendo
escondidos para não
mostrarem as feridas
abertas da alma e da cabeça
e agora as gentes
com mais anos de vida
e menos de humana qualidade
incontinentes de palavras e de mijo
perdidas num mundo
que apenas concebe
a perfeição
da matéria purificada
(Sarah Kane à parte.)
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
gatos e ratos
a gata viu
a presa numa tela
mas com a pata
sentiu a frieza do
objecto. havia
portanto
alguma superfície
que a impedia
de realizar o desejo.
por isso contornou a
mesma tela transpondo
assim no seu saber
a distância que a separava
da presa. porém onde antes
havia imagem, agora apenas
fios e pó.
desceu o móvel
queirosianamente
desconsolado
e enroscou-se em frente
da lareira. (realidade
perigosamente intocável).
adormeceu enfim quentinha
a pensar nos ratos que
nunca caçou.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
vaso partido
Foto de Clementine Catton
pus-te um verso
à janela reguei-o
mas o gato atirou-o ao chão.
agora vais ter que varrer
os pedaços da metáfora
e deitá-los no palavrão.
domingo, 21 de novembro de 2010
a mão
tinha-se estilhaçado
o rosto durante
sete anos de alheamento
até que a lua desceu sobre a mão
e encontrou uma pele
ainda que levemente enrugada
seca de flores ou anémonas:
arrastou-a até à árvore
mais próxima
e deixou-a ali
agarrada a um tronco
que não tinha cintura.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
id
eu sou eu
não sei quem é
apenas afasta
todas as possibilidades
de enunciação
porque te recuso
objecto.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
subway
Não escrevo aqui.
Porque não consigo rasgar a puta da tela
Nem foder os pixéis
Nem triturar as teclas.
Sai tudo limpinho,
Sem cheiro nem rugas
Sem suor nem lágrimas:
Asséptico
Jeuniste
Comme il faut
Como quem saiu d’um SPA
Ou entrou num filme HD.
Eu não tenho chão aqui.
Escolhi a profundeza
Dos esgotos
Da cidade que me pariu.
sábado, 6 de novembro de 2010
às vezes...
Adeline Ferré
"Se não fosse a imposição do trabalho, muito raramente estaria com outras pessoas, e só em condições especiais. Cada um deveria partir para seu lado e canto, durante anos de solidão, ou seja, durante o tempo necessário de fazer outros tipos de conhecimento. É preciso ter outras relações. As relações entre os homens são de matéria plástica, opaca, violenta. O olho vê apenas o outro olho; o dente esbarra com outro dente."
Maria Gabriela Llansol, Um Arco Singular, Assírio&Alvim, 2010
... às vezes encontro-me assim com Gabriela, fora do tempo, longe no espaço. e tão próximas.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
auto-retrato
Egon Sciele, Auto-Retrato
cada dia
chegava mais cansada
e pousava os ossos
depois da carteira
em cima da mesa de verga.
bebia um whisky
fumava um charuto
e adormecia
estupidamente.
cada dia
pousava mais ossos
em cima da mesa de verga
e demorava menos tempo
a adormecer
cada vez mais estupidamente.
um dia os ossos
já não cabiam
em cima de mesa de verga
e espalharam-se pelo chão.
já não conseguiu recompô-los
e a estupidez instalou-se
definitivamente
na sua cabeça.
foi disso que morreu:
ataraktos.
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