domingo, 30 de janeiro de 2011

nòstos



Regressei a Ítaca, mas a fachada estava renovada,
o interior também. Nem sinais da guerra de Tróia: Penélope
vendia-se barata, nas esquinas manhosas
da rua da Vitória que um dia foi contra os franceses,
não sendo eles bárbaros nem ciganos.
Não vi restos de teia destecida, porque
o frio é muito, ela está velha e precisa
de agasalho. Por isso,
olhando para a calçada de granito
com relva, senti o cheiro
de um porto que, afinal antigo,
jazia adentro de mim. Ouvi
também palavras que
me roçaram o corpo e me
deixaram esvoaçante, no
limbo dos detritos da história.
Já vão longe os vinte anos de distânci
a, estranheza entranhou-se e
a odisseia continua
sem regresso proustiano
ou espera agónica.
Depois de um lar de velhos
que o fogo me ajude a escapar ao Hades.

1 comentário:

Glauber Vieira disse...

Belo texto, e bem escrito, gostei!

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