domingo, 28 de dezembro de 2008

Que (des)razões?







Fotos da net, do ataque de Israel à Faixa de Gaza

Não me peçam fé nem esperança,

não me peçam palavras aveludadas,

nem sequer as paredes brancas do Eugénio!

Não me peçam complacência,

porque a vergonha que sinto

cala-me a razão.





quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

O teatro está de luto

Harold Pinter, 1930 - 2008
Não diremos que está mais pobre o teatro contemporâneo, porque as peças de Harold Pinter continuarão a encher os palcos com o pouco que sempre soube usar habilmente, com o quotidiano aparentemente banal, com a palavra certeira a fazer-nos tremer na cadeira.
Reler, rever Pinter, hoje, é urgente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Interiores

Marine Chéreau

Não são os objectos de que gosto. Mas das memórias que eles me guardam.


sábado, 20 de dezembro de 2008

De dramaturga para actriz


Beatriz Batarda, De Homem para Homem, TNSJ

Beatriz Batarda esmaga-nos em palco, tira-nos o fôlego, arrepia-nos as tripas, arranca-nos uma lágrima em hora e meia de espectáculo, saltando de situação para situação, num monólogo também ele grandioso.
O percurso de uma mulher que vive na Alemanha dos anos 30 aos 80, fazendo-se passar pelo marido morto com cancro, e para o que é obrigada a passar pelas mais diversas situações humilhantes, desde a mentira, ao tráfico, à prostituição, apenas para sobreviver. Mas o medo permanente leva-a a fazer sempre as escolhas erradas e a sua vida é um trágico fracasso.
Mais uma peça ideal para nos deixar mal com a nossa consciência, para nos obrigar a questionar a condição humana. Citando Beatriz Batarda, "O teatro tenta ajudar-nos a pensar com o coração nas mãos e a vencer as nossas ansiedades, para que possamos recuperar a confiança na nossa capacidade de construir o sonho."
Assim me aconteceu ontem, graças a este texto de Manfred Karga e à excepcional prestação desta enorme mulher do palco.
Felizmente pude esquecer a multidão consumista que se atropela pela cidade, distraída de quem dorme nos vãos de escada.
OBRIGADA, BEATRIZ!






quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Mudanças



Dizem que mudei!

Mau seria se depois dos ciquenta anos tal não fosse visível. Será talvez porque gosto agora de usar o xaile maternal a aquecer-me a alma? Porque acaricio as porcelanas desirmanadas que guardo num armário carregado de memórias?

Ou será porque o meu olhar é mais compassivo, mais humilde? Ou então porque começo indelevelmente a repetir gestos paternos e a sorrir sozinha, condescendente com as partidas que o tempo nos prega?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Nevroses*

A Coelho de Carvalho


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
E agrado a pouca gente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, intensamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para as sopas...

O obstáculo ou depura ou nos torna perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa de um jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais de uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia noite, e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei composições nenhumas,
Senão por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente. Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador, aqui, desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos litaratos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge dos estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Nem pão no armário, ó Deus! Chama por ela a cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Ouço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que vida! Coitadinha!

Cesário Verde





*Nota: A versão aqui publicada não é a de Silva Pinto, de "O Livro de Cessário Verde", mas a que primeiro foi divulgada por Joel Serrão (donde a diferença do próprio título).






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