quinta-feira, 30 de julho de 2009

umas outras lágrimas amargas

Les Larmes amères de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder





o turco que te envolvia contrastava fluentemente com a pele salgada de sol e o teu perfil era quase distinto enquanto o gato Visconti não te saltou às pernas e te despiu involuntariamente. não foi ele quem desfrutou da visão dionisíaca, mas eu que me ia cortando enquanto descascava as cebolas, os tomates e os pimentos. não valia a pena apanhar o toalhão porque a nudez era imaculada, dizias tu. era arrebatadora, pensava eu. porém já não havia brilho nas palavras que nos saíam dos lábios. eram baças, embaraços, escolhos no nosso caminho. restavam as miadelas de cio da gata Duras para dar alguma cor ao ambiente.
voltei por isso a aplicar-me na preparação dos legumes, enquanto balançavas pacatamente na rocking chair, fumando a cigarrilha estafada e um whisky velho.
meti a panela ao lume, esperei que a água fervesse e depois, também pacatamente, peguei nela para a despejar em cima dos teus longos cabelos pretos.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

mares


"há mar e mar
há ir e voltar"
(diz-se)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

até já

Marc Poirier




Não fugi, não senhor, meus caros Anónimos/as, Ex-Namoradas, Leitores Identificados, Amigos Virtuais ou não!




Quanto às pessoas que amo, não preciso de me dirigir por aqui.




Vou apenas mergulhar.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

ponte

(foto da net)

a palavra

tecida nos socalcos

de água

estremece-me

o corpo:

ponto de passagem

de mim

para ti.


domingo, 12 de julho de 2009

mitos que os fios tecem...




















com o aparo


cavo a terra


teço a linha


e bordo o texto


"As mulheres eram igualmente notáveis na perfeição dos trabalhos que confeccionavam. Teciam entretecendo fios nos belos tecidos que fazem representar formas tão vivas que toda a gente ficava a conhecer perfeitamente todos os enredos que queriam ilustrar. Foi assim que Filomela se voltou também para o tear. Tinha um motivo muito especial para dar a conhecer com clareza a sua história. Com um padecimento infinito e uma habilidade inexcedível conseguiu fazer uma tapeçaria maravilhosa, onde expusera o relato completo dos seus males. Uma vez terminada a obra, entregou-a à velhota que a servia, dando-lhe a entender que se destinava à rainha.


Orgulhosa por ser portadora de tão bela dádiva, levou-a a Procne, que, nessa altura, ainda usava luto pela irmã, luto esse que igualmente lhe invadia a alma por completo. Desenrolou a teia e lá encontrou Filomela e Tereu, também inconfundíveis. Horrorizada interpretou a cena - para ela o desenho da tapeçaria era tão inteligível como a letra o é para nós."


Mito de Filomela

Filomela e Procne


Nota: A pintura é "A rendilheira" de Vermeer, 1664





sábado, 11 de julho de 2009

na ilha de Lesbos

com Marie Chouinard, em Orphée et Eurydice

Teca, Porto, 10, 11, 12 de Julho de 2009

Orphée et Eurydice é uma obra poderosa, excessiva, habitada por vagas de humor. Fascinada pelo corpo até nas suas manifestações mais íntimas e secretas, a coreógrafa Marie Chouinard concebeu uma “dança exploratória” que ousa o desregramento do corpo, a desmesura, executada por intérpretes que nisso se empenham totalmente. Esta dança demoníaca expõe as origens viscerais da criação. Sopros, gritos, vogais, consoantes desenraízam-se do orgânico como uma infra-língua extraída do âmago do corpo. Não é um mito sobre o amor. Não se procure aqui uma só Eurídice, um só Orfeu; eles são múltiplos, no número e no género.

Michèle Febvre – http://www.mariechouinard.com/

O excerto de vídeo que se encontra no site de TNSJ não me tinha atraído muito. Apenas o texto.

Mas valeu a pena ter arriscado! A orgia criativa não é de todo asséptica como parece. E assistir a este espectáculo é quase uma experiência erótica, de celebração do corpo e da poesia.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

missa breve



as escaras podem cobrir-me o corpo
o sangue sair em golfadas pela boca
as lâminas cortarem-me os pés descalços
que eu continuarei
paulatinamente o caminho
carregando palavras como se
foram pedras, em silêncio,
num fraseado de gestos seculares
coreografando a vida, com
velas e incenso,
com ramos de oliveira
e uvas tintas
no altar de catedrais góticas
ou de dólmenes graníticos
porque todos me servem
de palco a uma missa crioula
seja lá para que deus fôr.
a minha religião são os esqueletos
putrefactos, feitos de lágrimas
insolventes na memória
e não tenho arrependimento
no horizonte porque a culpa
não me maculou o parto.


atirado o punhado de terra
sobre o esquife, continuo
descalça o meu caminho
solitário.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Era uma vez


Era uma vez uma família que foi feliz para sempre.

sábado, 4 de julho de 2009

uma luz




(para o Anselmo Freitas)


talvez amanhã
ou ali naquela esquina
a luz se esquive
mas o mar continuará
a seguir o movimento da lua
porque será apenas
um olhar a menos
sobre o mundo.



quarta-feira, 1 de julho de 2009

o meu sol



pele com pele
é o mais
que emprenha
o olhar.



aspirando o corpo
às palavras,
elas não sustentam
a memória.



digo-te:
amor.
e o sol inunda
a cama do poema.

visitantes da babel