terça-feira, 29 de setembro de 2009

fade out

Jorge Vasques, em O Cerejal, de A. Tchekov





"É isto o teatro: a vida e a morte."


(disse Eugénia Vasques, irmã do actor e professora da ESTC, há algumas horas atrás.)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

apenas


(em memória de Jorge Vasques)


Foi apenas um homem que morreu. Apenas um actor, apenas um pai, apenas um irmão, apenas um amigo...
De resto, os rios continuam a correr em direcção ao mar
O dia e a noite continuam a alternar segundo o ritmo previsto
Os cafés abriram à mesma hora
Os transportes atrasaram-se tal como de costume
As conversas da manhã versaram os temas da actualidade
Isto é, a vida continua...
Mas eu estou parada, o meu olhar paira no vazio
Ainda não ouvi a minha voz
Respirar é uma tarefa árdua
E nada do que tenho para fazer
Me parece essencial, nem tão pouco inevitável

Encontro-me
No relógio sem horas
Que guardo religiosamente
Desde a morte dos meus pais.

domingo, 27 de setembro de 2009

........................................

Jorge Vasques, actor.
(Faleceu ontem, depois da representação de "O Feio", no Teatro Helena Sá e Costa. Hoje não houve espectáculo)


diz-se que a vida é um palco............




e tu, Jorge, quando saíste do palco, saíste da vida.




................................................porquê?




_____________________________TU?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

gestos simples

(ainda e sempre para a
Isabel Mendes Ferreira)
porque esta tela é virtual
não há princípio nem fim
apenas dejectos em colisão
que são o tudo e o nada.

além, no papel que amarelece,
as palavras sobrevivem
a qualquer catástrofe
porque são do corpo e da alma.

(fotos atempadamente surripiadas do blog PIANO)


domingo, 20 de setembro de 2009

outono






é quando os dias se contam pelos dedos
que a terra se prepara a parir o ventre cheio
de uma vida inteira amadurecendo
legumes e frutos
ou azeite e farinha
que o soalho range por cuidadosos que sejam os passos
de tanto sabão amarelo e lixívia
e sossega a vigília tranquila de muitas noites vazias.

já não vejo motivo para lágrimas
a bordarem estes dias últimos
se as colheitas preparam um novo ciclo fértil
e a natureza se cumpre assim
dócil e selvagem num espasmo de amor
de quem repousa o corpo
e se evade da alma.

preparado o esquife em cerimónia singela
apenas se aguarda um sinal
que venha do céu ou dos montes
uma gota de sangue na pia baptismal
ou os sinos talvez que toquem a rebate
para iniciar o percurso do calvário
até à montanha mais alta
e com as cinzas de novo fecundar
o ventre renovado.

domingo, 13 de setembro de 2009

do elogio da insatisfação



naquela manhã era cedo, muito cedo. o silêncio reinava ainda na cidade e só assim ganhou coragem para se levantar. tinham voltado a ser-lhe pesados os dias úteis, cheios de lufa-lufa, com muita pragmática na fala.
bastaram-lhe uns tempos de convívio singelo com a fonte sagrada, o ar prenhe de lembranças aconchegantes, a brisa murmurando latidos e sinos para ela respirar fundo e sentir que afinal os pulmões estavam carcomidos de lixo reciclável e da cultura vigente da satisfação obrigatória que enchia os ginásios, os spa’s, os restaurantes de comida light, as bebidas sem alcool, o café sem cafeína, o sal sem sódio, as gorduras zero, o sexo virtual.

mas a sua natureza fora embebida em aguardente e maduro tinto, em cabrito assado no forno de lenha, em calçadas íngremes que só se subiam de cajado, num sol escaldante que ignorava os raios UV e no cheiro a toda a espécie de lixo que alimentava a fome de moscas e moscardos. as conversas no adro da igreja tratavam da prima do senhor padre que estava a ficar inválida de artrose sem poder satisfazer-lhe as necessidades mais básicas de sobrevivência, sendo por isso necessário procurar uma moça bem roliça e ágil que se prestasse a ser a nova dona da casa paroquial; do filho do Jaquim que tinha emprenhado a professora num acesso de raiva ao vê-la telefonar a um namorado invisível que nunca ninguém tinha visto; do Manel que levava diariamente a comida à Micas a pretexto de que ela não se podia mexer, entrevada depois da operação às varizes, mas que lá ficava pela tarde fora até à hora do terço...

por isso, naquela manhã cedo, muito cedo, ela pegou num saco, meteu umas roupas, atirou fora o telemóvel e meteu-se no carro, montes adentro, sem dizer água vai. sentiu o sol afagar-lhe o rosto, desviou o olhar para o rio e o carro perdeu a direcção.

felizmente não tinha documentos e não havia ninguém para a reconhecer. no tablier, apenas a foto de uma mulher que ninguém identificou.

domingo, 6 de setembro de 2009

sobre ti




são cada vez menos
as palavras que têm
a medida justa
para dizer o amor:

sinal de que as uvas
estão maduras
e me oriento apenas
pelo leito do rio.

são cada vez mais
os tempos de silêncio
grávido de mel
na sombra das oliveiras

e a brisa ao poente
traz-me música
pão e vinho
que estendo sobre ti.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

outro sorriso


Há um segredo
Atrás de cada porta
Há um sorriso
Que só os amantes
Reconhecem.

Há uma porta
Que só um sorriso
Pode abrir.









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