quarta-feira, 26 de agosto de 2009

no monte










quando subo a esta rocha
vejo a pequenez das palavras
ou dos deuses.
então respiro fundo
e encosto-me ao silêncio
da tua pele.





domingo, 23 de agosto de 2009

o sino da minha aldeia



há palavras abortadas

que guardo na gaveta

da escrivaninha que nunca tive.


há imagens apenas sonhadas

que resguardo do vento

de leste.


há cheiros que me aquecem

nas noites de inverno.


há frutos maduros

que me sabem a ti.


há tecidos que toco

com os olhos fechados.


e há sinos de aldeia

na minha cidade.


o texto que fica

é o corpo da alma nossa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Morreu uma GRANDE MULHER do Porto

Isabel Alves Costa, 1946 - 2009
Filha de Henrique Alves Costa, fundador do extinto Cineclube do Porto, primeira e única responsável Artística do Teatro Rivoli do Porto, uma das programadoras mais activa do Porto Capital Europeia da Cultura em 2001. Actriz, professora de Dramaturgia, criadora do Festival internacional de Marionetas do Porto, introdutora do Novo Circo foi que mais fez por esta cidade a nível Cultural, na segunda metade do Séc. XX. Recebeu o Prémio de Chevalier de Arts et des Lettres, em Paris, em 2006. E mais não é preciso dizer.

Destaco uma afirmação que fez recentemente, a propósito da "questão Rivoli":
"Um dos maiores problemas deste País é a fulanização. Eu não tenho nada contra o teatro musical, apenas não gosto, e muito menos contra o Filipe (La Féria). Mas ele já tem a sua sala, onde faz os seus espectáculos. O que eu contesto é que lhe seja vendida uma casa de cultura que é da cidade."

Creio que a divulgação desta sua frase é a melhor homenagem que lhe posso fazer. E acompanhá-la-ei, na sua última viagem pelo Porto, hoje às 14:00, de Cedofeita para o Prado do Repouso.

Bem Hajas, Isabel! Obrigada.



sábado, 15 de agosto de 2009

vai... vem...





(em memória do meu muito querido amigo
Adriano Teixeira de Sousa)
quando um homem é digno
quando um homem é inteiro e doce
quando um homem também chora
a sua vida fica muito para além da morte.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

sorriso

Île Rousse, Corse, 1981
com a materna/idade
com as brancas com as rugas
com as mortes com as feridas
ganhei um sorriso maduro.
agora
apenas procuro a cor da pele
e o corpo das palavras.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

envolta pelo mar







é envolta pelo mar
que me sinto.
informe e sólido
cola-se à pele lambendo
a alma com ondas de sal
o corpo confunde-se com
a água num movimento
de areia acesa de espuma
vão-se os fardos
vêm as barcas
explode o fogo
na girândola lunar
os sentidos misturam-se
na paleta de sons
que a costa murmura
e o cio cresce. sequioso.
é envolta pelo mar
que sou.
mulher.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

um post a quatro mãos


o que pode valer o sabor de andar
à chuva o calor as rugas as ruas
o valor das mãos
os ossos um pulmão
a casa o tafetá
o saber de um coração
uma gargalhada
a conta bancária o elevador
as dezasseis válvulas a marca
o troco o sigilo um sorriso frouxo
de que vale um sofá
o ciúme
os meios um tiro as ruínas
se tudo é resina
resíduo pretexto inventário de pó.

o nome é a porta
o resumo
a rima
o corpo só vale enquanto chama
rama
raiz jogo que será cinza

o resto é só entretanto.

e em nome de tão pouco nos entregamos.

Isabel Mendes Ferreira, Canto Chão, 1992

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