terça-feira, 30 de junho de 2009

Pina Bausch morreu hoje...


Pina Bausch, 1940 - 2009

... porque do corpo fez poesia, eu perdi uma estrela.


domingo, 28 de junho de 2009

(a) sísifo



não foram os nossos mitos
matriciais de origem grega
e Sísifo seria mulher
como a Luísa que sobe
sobe a calçada:
que é delas a persistência
de esfregar a roupa
até que saia a mácula de sangue
{mênstruo vergonhoso}
de caminhar montes acima
a acarretar água para
dar de beber à dor.
não sou Sísifo, portanto,
mas Luísa, Isabel, Maria
com uma força inexplicável
para acreditar
na paixão, subindo a montanha
de cada vez que caio
porque essa é a única
razão de viver.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

vazio


... é cada vez mais ténue a linha
que me separa da afasia do coração.

domingo, 21 de junho de 2009

meu mar - yamore


"...percorro assim a praia ao longo do teu braço."
Luís Miguel Nava





Poder-me -ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual me vem o sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.
Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.
Luís Miguel Nava, Poesia Completa (1979 - 1994), Publ. D. Quixote

quinta-feira, 18 de junho de 2009

elogio da fealdade







desagrada-me
a beleza:
simetria irreal
parada no tempo.
gioconda rodeada
de nipões.

gosto das ondas
que me escapam das mãos,
da pele que enruga,
dos cabelos que branqueiam.
gosto de uma chávena
quebrada, de uma mesa
com um calce,
de um dedo calejado,
do número ímpar da nossa porta.

essa é a beleza
do tempo
que passa:
como a vida assimétrica.

domingo, 14 de junho de 2009

e o mundo fica diferente


procuro as palavras
do fundo das entranhas,
um raio de sol que seja
uma nesga de lua.

desenho meticulosamente
e com cuidado
sobre o branco desta folha
o resultado da pesca
à espera que as linhas
se encham de caracteres
se sigam uma às outras
preencham a folha

mas nada acontece.
será certo,
portanto, que
“todo o começo é involuntário”...

terça-feira, 9 de junho de 2009

prefiro ler

Edward Hopper, Hotel Room



quinta-feira, 4 de junho de 2009

la vie va vers la mort, vaut mieux en profiter

E fui presenteada, pela Isabel Mendes Ferreira, aqui.

Para ela, uma flor de obrigada!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

3 de Junho de 1920


o tempo ainda não teve tempo de transformar a tua ausência, Mãe, em presença tranquila. e o meu coração acelera, o sorriso voa subitamente para outro lugar, as palavras afogam-se, enterram-se, estilhaçam-me a alma como um punhado de alfinetes. tenho frio nos olhos. caminho longamente pela tua vida à procura de um alinhavo que porventura tenha ficado em alguma bainha dos casacos com que me agasalhaste. seja qual fôr a estação em que pare, é sempre o teu sorriso que me acolhe: a força de mulher, o milagre de mãe, a ternura de filha. e o amor de avó. como são indeléveis as marcas que deixaste nestas flores que me acompanham!
assim cumpriste a tua vida, o teu desígnio. sem nada falhares. mas quem, de nós, não queria ainda a tua dádiva? a sara procura-te em cada esquina ou loja de costa cabral, a inês sonha modelos que tu poderias ensinar-lhe a cortar. e eu... bastava-me ouvir-te dizer “estava mesmo a pensar em ti”...

PARABÉNS, MINHA MÃE! (porque não pela 89ª vez?)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

trabalho de casa

Rua Miguel Bombarda, 09

os esgotos
da minha alma
permanecem fechados
a viajantes de passagem.




Fundação de Serralves, 09

a pena esvoaça
sobre a folha
com a mesma
ambiguidade
dos olhos
que a perseguem.

Cabo do Mundo, 09


nem toda a terra
estremece
nem todo o mar
permanece.

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