sábado, 27 de fevereiro de 2010

estória fractal





digo que foi uma folha de lotus que caíu de uma janela no Oriente e a vela, que tinha sido acendida uns minutos antes por um velho sereno à estátua de Shiva, se apagou com a brisa provocada por um colibri que beijava uma flor nas costas da América do Sul.  o calor húmido da savana provocou um imenso tremor em Katherine Mansfield quando ela se preparava para fechar a janela do seu quarto em Londres. e foi assim que as amendoeiras se encheram de brancura no Al-Gharb e o príncipe  Ibn-Almundin se tomou de amores pela princesa Gilda, tal Rita Hayworth gingando “Put the Blame on Mame”. essa não foi a postura de Santa Isabel, quando disse serem “rosas, senhor!” pois de tal forma não seria o mar salgado com lágrimas de Portugal, mas talvez o deserto manchado com o sangue de Alcácer Quibir e Sebastião voltasse com o Romeiro para desgraçar a família Coutinho, ou Pereira, ou Bragança. interessa é perceber que não há “a Hora”, mas antes uma Chuva Oblíqua desencadeada por uma só lava em Stromboli, que ninguém conheceria sem o filme de Rossellini. um Orlando que, não sendo furioso, descobriu a sua androgenia nas mais belas páginas de Virginia Woolf, de quem não é necessário ter medo. nem tão pouco do tempo que passa inevitavelmente mais depressa à medida que as rugas se acentuam em volta dos olhos ou dos buracos negros que invadem a memória, ainda que tenha sido de elefante. as naus já partiram há muito contra restelo, o ouro está todo delapidado pelas paredes de igrejas barrocas até ao tutano, a cadeira caiu mesmo sem ninguém lá sentado, as prosperidades foram devidamente adulteradas em latifúndios, ao longe a preto e branco, os cigarros distribuídos, as mentes e consciências branqueadas, os livros rasurados , a aurea mediocritas enraizada. não viste nada em Hioroshima, os veteranos do Vietnam só aparecem em filmes, do Kosovo ficaram alguns romances por escrever,  talvez o Iraque guarde a bomba fantasma para outro século... 



.só Gaia está zangada e é natural que se aconchegue a Caos.


Foi apenas por isto que nos encontrámos, num fim de tarde, à beira rio.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

ofícios



o ofício de 
polir palavras
não é tarefa de deuses.
é sabedoria
de camponeses.


varrer a soleira da porta
é a forma mais
sublime da poesia que
escolhi escrevinhar.
me.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

7 anos de distância


Como não tivera eu um buraco na alma
da falta de ti
do teu olhar, do teu riso?
Como não tivéramos nós lágrimas
persistentes, resistentes, ao tempo que 
não nos passa?

Não são as palavras, meu pai,
que me faltam.
És TU,
apesar de habitares 
o meu coração.

 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

re/nascimento



entre o dito e
o não-dito
fica um lastro
sebento
de palavras daninhas
que não encontram
sossego
senão infiltrando-se
na superfície
aparente
mente lisa
do asfalto que
cobre a cidade.

um dia, porém,
a terra será
de novo
fértil.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

PARABÉNS, INÊS!

 

(para a Inês)

Como hei-de dizer-te
O arco-íris com que me envolves
A profundidade dos teus olhos
E a doçura que eles espelham?
Como hei-de dizer-te
A ressurreição que me és
A cada dia que passa?
A força dos teu abraço
A liberdade dos teus cabelos
A limpidez das tuas lágrimas
A grandeza marítima do teu coração?
Como hei-de dizer-te
Filha
Esta benção desmesurada
Que não me cabe
Nos dias todos?

Digo apenas
Que sou tua
Mãe. 


 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Fuga/cidade ou Fugaz Idade

Antonio Pereda y Salgado



Entre mim e o texto não há lugar para resíduos tóxicos do coração.Quer-se a absoluta explosão do sujeito conforme as pautas rasuradas de Satie, num confronto de guerra fria celebrada entre a potência feminina e a fragilidade das palavras abandonadas no cais.
O eu cede definitivamente lugar à mais delirante fantasia de cabaret, mascarada de tragédia lusitana que é a de não haver lugar a tragédia nenhuma. As personagens são, por isso e apenas, fotocópias acintosamente retocadas com maquilhagem estrondosa, mas bonecos manipulados e manipuláveis em todas as direcções. Tão depressa vomitam como cantam, se abraçam como se esfaqueiam. E não procuram perceber nenhum motivo, porque a representação é a própria vida.
Fica declarada em letra impressa desde o Génesis da civilização industrial a morte do “eu” para sossego dos múltiplos “tus” que vagueiam pela cidade à espera de serem apanhados na cilada do amor: invenção romântica que a humanidade ainda não conseguiu dinamitar [Drama burguês que Diderot impingiu às donas de casa, com a ajuda de Corin Tellado].
A Id, portanto, o espírito carnavalesco cansa-lhe as sobrancelhas e acentua-lhe as rugas do mau feitio. Por isso se encerra num mutismo inabalável, digno de uma Maina Mendes ou até de uma Irene Lisboa, vestindo a aparência mais exuberante possível de forma a afastar em definitivo todos os benfeitores militantes. Talvez fiquem então criadas melhores condições para o contrabando de almas e o tráfico de corpos em segunda mão.
O texto pode começar, meine Damen und Herrrn!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

solitudine


a solidão da pedra
é bem mais fria
do que aquela
que escolhi para mim
e me envolve
carinhosa
nas tardes de inverno.

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