sábado, 28 de fevereiro de 2009

fragmento de escrita mais ou menos automática

Marcel Duchamp revisitado por ângela marques
A erva que nasce dos meus pés é uma marca da pós-modernidade desconstrucionista na dobra do tempo inefável, circunscrevendo-se aos ditames da lei do mais forte, na linha horizontal de um pedido exíguo que inconscientemente me bate à porta. No entanto, tendo em conta a carestia de vida e o calejamento das mãos confesso que o pavor que encontro nos teus olhos me repugna qualquer interrogação retórica e antes me atrai a hiperbolização dos sentimentos como forma de conhecimento imediato, sem a peneira da farinha a impedir que os raios de sol me lambam o corpo.
É com uma convicção vinda do mais fundo das minhas artérias que me sinto condenado ao esvaziamento total das palavras que tenho guardadas no disco duro do meu cérebro, para devolvê-las ao esterco que corrompe as bocas dos dirigentes imundos e dos mundos dirigentes, indigentes, detergentes que lavam branco, muito branco.
Tudo incrivelmente asséptico, de forma a não restar um segundo de dúvida metafísica acerca da relação possível entre o erotismo e a inteligência.
O azul pode transformar-se em amarelo desde que as premissas estejam lançadas pela janela fora e os vómitos dos condenados sejam arrancados a ferros num parto prolongado até ao estertor de uma mãe moribunda.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

farta


estou farta do teclado. farta dos e-mails. farta das câmaras digitais e dos mp3 e 4, dos i-pod’s e dos que não podes também. estou farta do tabaco light e da cerveja sem alcóol, farta do chá em saquetas, do café com adoçante…
é tão banal dizer isto tudo que vou ler Camilo.
escrevam-me cartas, por favor! mas não deixem de me escrever.

25 de Fevereiro de 2003



Pai,

já não há tempo, neste tempo.
Vives agora tão cá dentro que não posso deixar de pensar que também tu sorris. (Até as tuas netas me chamam Sr. Marques.)

Contigo aprendi o convívio sossegado com a morte. Herança sublime.

E o nosso amor é feliz.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

tarde vazia

recomeçar
lentamente o passeio
agora pesado
com uma solidão outra,
a do final do caminho,
prenhe de
flores ou urtigas.

fazer o inverso percurso
do rio até à fonte,
buscando afinal
no grito do parto
o aconchego
da posição letal.

e a tarde recupera
enfim
o fôlego das aves.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

apenas uma carta


Não converso e muito menos discuto com o Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares, porque seria infrutífero. Mas converso e discuto com Augusto Santos Silva, como sempre.
Foi interessante, inesperada talvez para quem te não conheça, a comparação que fizeste entre “democracia” e “teatro”, relembrando que ambos têm origem na mesma cidade, Atenas, e que ambos usam a palavra como instrumento de conflito.
No entanto, se me permites, isso induz em erro qualquer ouvinte mais desinformado. Isto é, se há esta comparação, pode haver outras, como por exemplo, “afinal é tudo uma representação, um fingimento...” Não foi o que disseste, nem tão pouco o que eu digo, mas poderá pensar o mais, e até o menos, comum dos mortais.
Daí que eu não teria deixado passar tão brilhante referência. Porque a “democracia” ateniense discutia-se na Ágora, bem no centro da cidade, de homens para homens, por se tratar de assunto meramente humano. Enquanto o “teatro”, se representava em anfiteatros, bem nos arredores de Atenas, junto dos lugares de culto, onde os atenienses se dirigiam em procissão, para aí assistirem às tragédias representadas, procurando nas palavras trocadas entre homens e deuses, a catarse para os seus sofrimentos. Aí se sagrava o sangue e não se repartia a carne seca. Aí “a palavra “era performativa” (Quand dire s’est faire, O. Ducrot). Ao ser dita ela era a acção e o conflito em si mesma, ao contrário do que acontecia na Ágora onde ela se limitava a ser assertiva. Como tu próprio referiste acertadamente, muito depende do lugar onde as palavras são ditas: no centro de Atenas a palavra tratava da coisa humana, daquilo que os romanos viriam a chamar a “res publica” e nos anfiteatros a palavra era sagrada, era a palavra que fazia vibrar os atenienses pelo seu poder de colocar em cena, mimeticamente, os seus penares mais profundos.
Nem num nem noutro caso havia portanto lugar ao “fingimento”, à “falsidade” que infelizmente o senso comum veio a acrescentar a estas duas realidades tão nobres, que são o teatro e a democracia e que tu, inadevertidamente, induziste os auditores a poderem perigosamente comparar.

Digamos que foi naquele rés do chão, da Rua da Bandeirinha, que dava para o Douro, a ouvir a Antena 2, que eu te disse estas coisas.


homenagem

3 de Fev. 1971 - 20 de Fev.1999

"O teatro não tem memória, o que faz dele uma das artes mais existenciais."
"I gassed the Jews, I killed the Kurds, I bombed the Arabs, I fucked small children while they begged for mercy, the killing fields are mine, everyone left the party beacuse of me, I'll suck your fucking eyes out send them to your mother in a box and I die I'm going only fifty times worse and as mad as all fuck I'm going to make your life a living fucking hell I REFUSE I REFUSE I REFUSE LOOK AWAY FROM ME."
in, 4.48 Psychosis, Sarah Kane Complete Plays, Methuen Publishing Ltd, London, 2001
(Esta peça foi levada à cena, em Portugal, pelos Artistas Unidos, em 2002, com encenação de João Fiadeiro)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

equívoco

Foto de Delphine Joindeau
quando chegar o tempo
de partir
é porque encontrei enfim
a transparência do fogo
e voltarei a sorrir
de costas viradas ao mundo.


ficará desfeito o equívoco
que foi esta passagem
entre rostos e máscaras.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

PARABÉNS, INÊS! (15 anos)


EXÍGUAS SÃO AS PALAVRAS
PARA TRADUZIR
OS CAMINHOS ÍNVIOS
QUE PERCORRESTE,
MENINA-A-SER-MULHER,
ATÉ ENCONTRARES
O SEGREDO
DA TUA FELICIDADE.
amo-te.
obrigada por me seres.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

a voz

Max Raabe

É tão mais leve o sentido na estranheza da língua.

E imenso.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

agora


Christiane Zschommler

já não há granito
que me rasgue a alma
nem ácido
que me corroa as veias...

apenas o estupor
paira nos meus olhos.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

noite





















Fotos de Gregg A. Jennings




é quase noite
nas paredes húmidas
desta língua
que me pariu.





terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

ready-made literário



Eu bem sei que quem conta um conto, acrescenta um ponto, mas também mais vale um pássaro na mão que dois a voar. Voa-a-voa Joaninha que o teu pai foi a Lisboa e Roma e Pavia não se fizeram num dia porque quem vai ao mar perde o lugar. Portanto querer é poder, que dos fracos não reza a história e quem não trabuca não manduca. Às vezes não é bem assim, não trabuca e manduca que se farta como a Marta vai ver se chove e na volta já papou o Sebastião sem colher. Ora o que eu queria era explicar que sem alhos não há bugalhos e o cu nada tem a ver com as calças. Mas hoje em dia essa é uma tarefa tão difícil como mijar fora do penico, porque penicos há muitos e chapéus nem por isso. Se cada macaco estivesse no seu galho, talvez a peneira não tapasse o sol, porém nem tudo o que vem à rede é peixe e a única solução é ter tudo na ponta da língua, salvo-seja. Embora as más línguas possam desatar o nó górdio, o calcanhar de Aquiles de muita gente está para o fiat na virgem e não corras, como grão a grão enche a galinha o papo está para o vai e não voltes. Nem tudo são rosas, senhor, nesta vida fodida, por isso decidi ir dar uma volta ao bilhar grande e espero que quando voltar o malhão-malhão já tenha acabado.


domingo, 8 de fevereiro de 2009

uma casa a sul

Jean-Guy Roy

retomar o caminho rugoso em direcção ao sul, entre duas páginas, para erguer pedra a pedra a casa rasteira. onde o cheiro da terra se confunda com o do fogão e o do jasmim. longe, o mar, delineando versos na areia, serve apenas de cenário.
no centro da sala a esteira adormece o gato enrolado nos seus pensamentos, enquanto Ana e Maria lambem o musgo que nasce ao pé da janela do quarto. o vaso de begónias ilumina o chão.

do lado de fora, não se ouvem os gemidos de amor.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

um post que não é


Darmin Veletanlic'



"Toda a forma de criação autêntica e consequente procede da concomitante liberdade de não ser. (...) É por isso que a «criação», apropriadamente compreendida e experimentada, é um outro nome da «liberdade», desse fiat ou desse «que seja» que só tem sentido na sua relação virtualmente tautológica com o «que não seja» É apenas gratuitidade perante o ser - o ser é sempre um dom - que o artista, o poeta, o compositior pode ser qualificado de «divino», e que a sua prática pode ser considerada à do Fazedor primeiro."


George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, 2001






"há três coisas que metem medo: a primeira, a segunda e a terceira.

A primeira chama-se vazio provocado, a segunda é dito o vazio continuado, e a terceira é também chamado o vazio vislumbrado.

Ora sabe-se que o Vazio, não se apoia sobre Nada.

Há, assim, três coisas que metem medo.

(...)a terceira é um corp 'a' screver. Só os que passam por lá é que sabem o que isso é."




Maria Gabriela Llansol, Geografia de Rebeldes, O Livro das Comunidades, Ed. Afrontamento, 1977



(para Nada)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

kairos





talvez a manhã


esteja aqui


a ser concebida


com o descuido


de um cigarro


que se apaga.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

eu me confesso:


Invejo-te, gata!

ce cabaret du néant

Ingrid Caven

"Je suis issue d'une génération qui n'a jamais été satisfaite de rien, et qui ne sera jamais satisfaite"

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

in memoriam





(para a Norma, mulher de J.A.S., com a amizade de sempre)




Desde que conheci o Professor José Augusto Seabra, na Faculdade de Letras do Porto, há 34 anos, até à data da sua morte, construí uma imensa teia que foi uma relação de afecto complexa, sem concessões, limpa de miudezas torpes. Feita de um diálogo ora tenso, ora cúmplice, mas sempre diálogo que foi uma, de entre muitas coisas, aquilo que com ele aprendi. Ouso dizer que foi o mais importante.
Diálogos progressivamente mais sintonizados, onde se perdia muitas vezes a noção do tempo, em favor de uma descoberta e aprendizagem permanentes, da minha parte, de desabafos ao mesmo tempo tristes e sempre optimistas por parte deste homem que “De exilo em exílio”[1] nunca deixou de olhar para Portugal com a preocupação e a acuidade que lhe eram características.
José Augusto Seabra foi um homem que deu do seu melhor a este País, e no entanto coube-lhe um “desterro” eufemístico. Não venham os poderes passar uma esponja por cima de mais uma das muitas injustiças que nos envergonham a história.
Aqui deixo, ensanguentadas, as palavras que ficaram por dizer, meu amigo. Aqui encerro, apenas simbolicamente, as nossas conversas intemporais, meu professor. Aqui planto uma cruz na terra de Ulisses, eterno companheiro de uma viagem interminável. Aqui levanto a voz aos céus para que me ouçam poetas e amigos nesta oração ateia. Aqui chamo a terra para que te embale a alma. Aqui enuncio as declinações desta língua que falaste “pobre lusíada, coitado”. [2]
Aqui des/enterro a tua voz para que fique dela o sabor e o saber.


[1] Título do seu último livro, publicado por Folio Edições.
[2] Citação de um verso de António Nobre, que José Augusto Seabra utilizou numa das dedicatórias que me deixou.




Bellini: Norma - Act 1: Casta Diva - Maria Callas; Tullio Serafin: Coro E Orchestra Del teatro Alla Scala

não posso esquecer

José Augusto Seabra, 3 de Fevereiro de 1937 - 27 de Maio de 2004
Homenagem na Biblioteca Almeida Garrett, 31 -01-2005

Rua do Porto

... e parece que ficaram tranquilas as consciências da "petite crème" da cidade.

Eu envergonho-me que a Faculdade de Letras do Porto, onde foi professor, não tenha um espaço, um gesto, NADA, que lembre a presença indelével do Professor José Augusto Seabra, entre 1975 e 1982.



domingo, 1 de fevereiro de 2009

mais mudanças


Depois da mudança sentida um pouco por todo o mundo, com a eleição de B. Obama para a presidência dos EUA, temos agora a Islândia a colocar no posto de Primeiro Ministro a primeira pessoa homossexual num posto de tal relevo...
Não posso deixar de dizer que gostaria que estas mudanças não ficassem por aqui. Que isto fosse o sinal de um século XXI renovado.
Digamos que são mudanças que acontecem pela franja e não no caroço dos problemas mundiais. Mas pode ser esse o caminho possível, contrariamente ao que aconteceu no início do século XX, com o surgimento de uma ideologia que parecia tocar no centro mesmo dos problemas e no entanto não teve pernas para andar até às últimas consequências.

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