sexta-feira, 27 de novembro de 2009

uma espécie de rosa

Fotografia de Imogen Cunningham, 1909

(para a Isabel Mendes Ferreira,
amiga de sempre)

por mais velas que acendas

não é com fósforos que vais

desenhar abraços

nem com réguas e compassos

que me acendes o coração.

foram longos os percursos

desde o ciclo do cavalo

debruado pela constância

da relação de mim contigo

e já não resta uma só sílaba

das palavras que me dizias.

o tempo foi-me subida

penosa até ao cimo de

um penhasco rugoso

no entanto mestre de ofício

lento e minucioso:

aprendi a oferecer rosas

quando a alma definhava de dor

aprendi a escrever poemas

com a fé dos peregrinos

aprendi os cânticos e o êxtase

próprios do amor.

por isso aprecio a maneira

delicada de quem escreve

com o corpo e dança com a

alma.




terça-feira, 24 de novembro de 2009

sorriso



Foto de Julia Margaret Cameron

quando arbitraria
mente me silenciaste
os olhos revisitei
uma a uma as almas
de pedra que me
fustigaram o corpo.

mas nem assim
corroem o sorriso
que guardo nas mãos
para oferecer em momentos
de comunhão.


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

corpo



quando o corpo
anuncia fissuras
nos ossos ervas nos pulmões
ácido no sangue
quando as mãos
mal seguram as penas
ou as foices e escorregam
na borda da mesa
quando as palavras
caem incontinentes
pelas pernas

o poema torna-se desmesurado

e explode em lava

pelos olhos



terça-feira, 10 de novembro de 2009

algures


haverá algures no mundo
uma folha que caíu
um coração que parou
uma bala perdida
nos braços de uma criança

ou apenas um pássaro que deixou de voar.

foi o suficiente para que uma lágrima
escorregasse gélida
pelo meu rosto
cansado.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

diário íntimo



Hoje fui às compras com Charles Baudelaire porque não podia carregar com os sacos todos. Ele prometera ajudar-me desde que eu o deixasse à porta do Père-Lachaise.

Conversámos sobre gatos gaivotas e ganza. Mas eu ainda não estou melhor.

Quem sabe eu encontro um poeta do campo, habituado a carregar o peso da terra?





sábado, 7 de novembro de 2009

eu e o texto




entre mim e o texto há uma ondulação
em tudo semelhante à de uma gata com cio.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

(re) lendo Pascoaes


"Andamos e não chegamos. O andar é tudo: princípio e fim."

Teixeira de Pascoaes



1.
tudo enquanto a
pedra cai sobre o poema
devagar
no movimento contínuo
de afogar o tempo.

2.
porque nada existe
para além do instante
eu espeto a pena
bem no meio dos teus olhos
meus.

3.
não há forma de permanecer
eternamente dentro do sonho.
por isso caminhamos de mãos dadas
e ninguém acredita.


4.
a verdade mais bela
é a que está no avesso
da boca
apenas visível
por gatos e poetas.









domingo, 1 de novembro de 2009

cronicando

(foto tirada gentilmente por um desconhecido que só depois reparei mal se segurar em pé de tão bêbado que estava)

Ando farta de oxímoros diletantes, de metonímias pomposas, de toda a retórica que se compra nas grandes superfícies.

Pelo contrário, no comércio tradicional, que não seja gourmet, encontro as metáforas vibrantes que dedilham a guitarra portuguesa e o contra-baixo de charles mingus. Palavras como estrume, morangos, mel, detalhadamente colocadas em prateleiras envidraçadas, com a minúcia de merceeiro calvo que não confunde milho com trigo e obviamente sabe distinguir este último do joio. Não estão empacotadas as palavras: são colocadas conforme o pedido do freguês, em sacos de papel, que este leva na mão e vai comendo devagar, quando o sol rasa rios e mares e o cheiro das castanhas invade a cidade, juntamente com os gritos das gaivotas.

Porque as palavras, ao contrário do que dizem correntes pós-modernas e afins, são para ser comidas, trincadas, mastigadas e engolidas. De preferência com a ajuda de um maduro tinto de boa colheita: seco, encorpado, acima dos 12º.

Em suma, prefiro Cassandra a Penélope.

Hoje.

Amanhã talvez opte por um aforismo de Agustina.

Lisboa/Porto, 31/10/09



visitantes da babel