sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

o meu sol é doce


(2000 - 2008)


Apenas por esta janela

sinto o sol lamber-me a alma.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

DAVOS

Do facto de que todo o poderio e todo o governo pertenciam primitivamente ao povo, e que este transmitiu o seu direito de legislação e a totalidade de seu poder ao Estado, ao Príncipe, conclui a sua escola, antes de mais nada, que o povo tem o direito de rebelar-se contra a realeza. (...)—Nós, porém—continuou Naphta—talvez não sejamos menos revolucionários do que o senhor. Sempre concluímos desse facto, em primeiro lugar, a supremacia; da Igreja sobre o Estado secular. Porque, se a origem não divina do Estado não estivesse escrita na sua testa, bastaria recordar precisamente o facto histórico dele derivar da vontade do povo e não, como a Igreja, de uma fundação de Deus, para demonstrar que ele é, se não uma obra do Demónio, pelo menos um produto da emergência e da imperfeição pecaminosa.
—O Estado, senhor...
—Já sei o que o senhor pensa do Estado nacional. «Acima de tudo o amor à Pátria e o infinito desejo de glória!» A frase é de Virgílio. O senhor corrige-o com o acréscimo de um pouco de individualismo liberal, e surge a Democracia. Mas isso não modifica em princípio as suas relações com o Estado. O senhor não parece chocar-se com a circunstância, de que a alma do Estado é o dinheiro. Ou tenciona, acaso, desmenti-la? A Antiguidade era capitalista, devido ao seu culto do Estado. A Idade Média cristã percebeu com toda a clareza o capitalismo imanente do Estado secular. «O dinheiro será o imperador», é uma profecia do século xi. O senhor nega que ela já se cumpriu integralmente e que a vida se tornou, em si mesma, demoníaca?

Thomas Mann, in Montanha Mágica, 1924

domingo, 25 de janeiro de 2009

Os RespIgadores

Jean-François Millet, 1814 - 1875

há os que afirmam
aconselham, apontam caminhos
assertivamente.
e há aqueles que observam
escutam, respigam pétalas
com a delicadeza de um olhar.

são estes que me conquistam
para a vindima ou a apanha
da azeitona.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

primeiro verso

Orphée, Gustave Moreau, 1965

os deuses
esqueceram-se de me dar
o primeiro verso. tive que
arrancá-lo a ferros
do fundo do ventre.

os outros
terei de cozê-los algures
num forno de lenha
ou numa parede bem húmida.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Quen non xime?

Rosalía de Castro, 1837 - 1885

Luz e progreso en todas partes..., pero
as dudas nos corazós,
e bágoas que un non sabe por qué corren,
e dores que un non sabe por qué son.


Outro cantar, din, cansados
deste estribilo, os que chegando van
nunha nova fornada, e que andan cegos
buscando o que inda non hai.



Triste é o cantar que cantamos,
mais qué fazcer si outro melhor non hai?
Moita luz deslumbra os ollos,
causa inquietude o moito desear.
Cando unha peste arrebata
homes tras homes, non hai máis
que enterrar depresa os mortos,
baixala frente e esperar


que pasen as correntes apestadas...
Que pasen..., que outras virán!



terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O Dia da esperança

Este homem teve um sonho...



e este pode dar-lhe forma.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Efeito Babuska




Madalena acendeu um cigarro pensativo, porque achou que também tinha direito a esse requinte estilístico e depois da primeira passa descaiu o braço sobre a mesa de mármore, junto ao cinzeiro. Ergueu lentamente o copo de maduro tinto até aos lábios, fechou os olhos e deixou-se transportar para a quinta do tio há muito perdido, enquanto apreciava aquele pedaço de Douro, encorpado, quente a entranhar-se na alma. Na mesa do lado estava Cristo, com um fato cor-de-rosa, balançando na cadeira e olhando-a de soslaio entre um e outro gole de whisky. Ainda o cigarro de Madalena não tinha acabado, quando Cristo caiu de costas.
Era uma cena de um minuto apenas, mas repetiu-se inúmeras vezes, durante uma meia hora, até que o realizador a tivesse considerado perfeita.






sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Paris revisitada

Catherine Deneuve & Malcolm MacLaren, Paris, Paris

quando me levantava do sena tinha

as mãos presas no lençol sob a ponte

tal e qual eram as pernas

que me havias enlaçado de véspera.

não sei se estavas louca à minha espera

ou se tinhas perdido o último metro

não sei se o café arrefeceu enquanto voltei ao mar

ou então se foi o sorriso que se esfumou nos teu cabelos

mas tu sabes que aqui as guitarras se abrem comigo.

ouve: volto sempre a Saint-Germain-des-Prés,

como uma fotografia desbotada,

sorrio de passagem ao Jean-Pierre

e tocarei à campainha.

Publicado na "Nova Renascença", 18, Primavera 1985 e agora reescrito.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

o meu poeta de 11 de janeiro

Al Berto, 1948 - 1997
Encomenda Postal
destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica
depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu
e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta
Al Berto, O Medo, Contexto/Círculo de Leitores, 1991


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

alinhavos

foto de christiane zschlommler

as palavras rasuradas a sangue
bastam para desdizer o fio
de um tempo maturado
ao invès da pele. cerzidos
ambos com a limpidez
das noites brancas
que se alinhavam
sobre os meus ombros
curvados de solidão

sábado, 3 de janeiro de 2009

Prefiro a gaguez



Está perfeito assim. Apenas me falta um gato. Você diz que não percebe essa minha necessidade, mas a verdade é que nem sempre compreendemos as necessidades dos outros. Claro que não vamos discutir, não foi para isso que viemos. Você diz que não sabe porque viemos, mas também isso não é importante. Então o que é importante. Vivermos, simplesmente. Mas tem que haver um objectivo, diz você. Todos os actos têm uma justificação, segundo afirma. Eu porém não penso assim. Então porque preciso de um gato, pergunta você. Porque sim, digo eu.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Moi aussi...

Renaud, Fatigué

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Le choix d'Antoine

Antoine, 1 janvier 1986- novembre 2008



Quelque part
entre le Rhône et le ciel
tu étincelles ta douceur.
Moi, je te berce
à toujours
dans mon coeur.



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