quinta-feira, 29 de outubro de 2009

uma viagem por Agustina


"Há no impulso da viagem um conselho erótico, mais do que uma curiosidade estudiosa"
Agustina Bessa-Luís, As Fúrias", p. 106
Não procuro nada.
Não tive a dita ou a desdita de nascer velha e olhar para a vida senhora do meu caminho. Por isso, em vez de partir do Porto para Lisboa, como algumas personagens de Agustina Bessa-Luís, em busca do prestígio, faço o percurso inverso. Regresso de Lisboa ao Porto, com um saco cheio de livros que só a mim servem, com o coração cheio de uma amizade que não tem nome e de presentes que também só a mim servem, com palavras apaixonadas que em mim ecoarão por muito tempo e que tentarei plantar e cuidar religiosamente até que dêem frutos.
Venho mais velha, portanto. Mais rica. Com menos dinheiro.
E muito mais feliz.
Disse Lídia Jorge, uma vez, que se sentia privilegiada por se ter cruzado com Carlos Paredes, descendo o Chiado. Eu sinto-me priveligiada por ter encontrado Lídia Jorge, subindo ou descendo a minha vida. Por ter conversado, ainda que por breves horas, com Agustina Bessa-Luís, numa tarde de sol.
E tenho ainda que dar graças a todos os deuses, quaisquer que sejam, por te ter sempre tão perto, sempre tão dentro, apesar da geografia nos ter colocado distantes.
Talvez agora, percorrido que foi mais de metade do meu caminho, eu comece a perceber o que vou fazer do nada que quero.
Basta-me morrer com o meu sorriso bem desenhado nos lábios.
(Lisboa/Porto, 28/29/10/09)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

efémera idade

porque há-de ser eterna uma vida com cáries?
para que há-de ser perfeito um jardim por regar?
porque hão-de ser belos os textos que não se escrevem?
bem haja a efemeridade das estações!

sábado, 24 de outubro de 2009

Não

Já não espero absolutamente nada. Nem a luz a anunciar o dia, nem os livros que não li, nem as flores a romperem da terra. Fechei portas e janelas, calafetei a alma, desci aos infernos: aconcheguei-me nas chamas da memória recente e fiquei a olhar todos os equívocos que se atropelam nas cidades.
Afinal é dos olhos que vivo e tenho que aproveitá-los enquanto distinguem as sombras das árvores. A noite aproxima-se e as minhas mãos ficaram irrecuperavelmente feridas até à raíz dos cabelos.
Não. Não quero lambê-las. Não vou lambê-las.




terça-feira, 20 de outubro de 2009

silêncio

é de silêncio que falo.

não do vazio de palavras
por ignorância residente
nem da censura atávica
que nos ensinam
não do que fica
nas cidades destruídas
ou nos campos dizimados
nem tão pouco daquele
que se pendura nos ombros
como fatiota de gala.

falo do silêncio maduro
daquele que se colhe
com as uvas
da escuta atenta aos sinais
da terra
do silêncio que se escolhe
e encolhe num telhado
ao sol
do sussuro das árvores
ou do rio afagando o leito
daquele que guardo
dentro de mim
para te oferecer
quando os meus olhos
definitivamente.




sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ser homem



O Douro chamava-me por entre as vinhas e a minha mãe também, anda cá que vamos a Lamego a buscar o correio e depois é distribui-lo todo até aqui. Mãe, estou cansado! Menos para trepar às figueiras é o que é! Anda daí que à tardinha vens comigo ao rio. O soalho já estava lavado com lixívia, a mesa da cozinha tinha a jarra com flores e a caneca do café pendurada no armário. A lenha do forno estava a morrer sem lume, as cavacas espalhadas em cima do granito e as cobertas das camas puxadas com genica. O sol entrava como gelo pelas janelas, lá fora o Farrusco ladrava impaciente em volta da bicicleta. Outras vezes chovia a cântaros e os gestos eram sempre os mesmos que as cartas não queriam saber da metereologia. Para que queres tu saber essas coisas, dizia-me ela, parece que te ficou a inteligência do pai, mas quem te dá o comer sou eu. Ele lá está na quinta dele mais a família a chamar a criada para trazer o leite e o pão e a geleia e depois leva-as para o cortelho, como a mim, e faz filhos sem dar por ela. Anda meu menino, a tua sorte foi o teu avô, que Deus tenha, ser um homem de bem e ter-nos arranjado esta casinha para vivermos com decência! E ainda me arranjou o emprego e a ti mandou o Sr. Joaquim cuidar da tua educação até seres homem. Bendito seja, com a graça da Nossa Senhora dos Remédios! Vamos lá.
As pedras do caminho já nos conheciam o andar, sempre igual, sempre rápido. E eu lia-lhe os nomes dos envelopes, mas ela já sabia de cor o desenho da caligrafia. A mim, faziam-me sonhar aqueles selos do Brasil… devia ser uma riqueza, tanto calor e os campos de café deviam cheirar tão bem como lá em casa ao sair do saco. Eu tinha uns livros que o meu avô tinha dado às escondidas à minha mãe para aprender quando crescesse, com a história daquelas terras, dos senhores que lá tinham quintas e outros que tinham partido à procura do ouro, que vestiam fatos brancos com chapéus de palhinha. Também tinha ficado com um cavaquinho, uma guitarra portuguesa e uma cadeirita de palha que era onde eu me sentava a ouvir as histórias que ele me contava, mal eu percebia as palavras. Parecia um mundo de música com a voz rouca entrecortada pelo cachimbo, um cálice de Porto sempre à mão e o sol a bater-nos na cara. O pai? Deixa lá meu rapaz, o teu pai não ganha juízo, mas tens uma mãe de ouro e por mim vocês não hão-de passar necessidades. Eu aqui estou para cuidar de tudo. Quando já não estiver… onde vai, avô?... Vou para longe, mas não vos deixo desamparados, podes confiar em mim.
Foi neste entretanto que a minha mãe arrumou as trouxas, toda de preto vestida e me disse que íamos para a nossa casa. Veio o Sr. Joaquim trazer-nos e despediu-se de nós com os olhos cheios de lágrimas, como eu nunca tinha visto nenhum homem chorar. Nunca mais ouvi falar naquela parte da minha família, a não ser um envelope que a minha mãe recebia todos os meses e que deixava nos correios: era uma conta com o dinheiro que o meu avô tinha mandado que me dessem até eu ser homem.



Foi demorado ser homem.



(excerto de um conto inédito, A minha noite vem mais cedo)

domingo, 11 de outubro de 2009

até...


Para já, entre o cemitério e Figueira, opto por Figueira.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

mais palavras...

3.

não inventes mais palavras,
meu amor,
porque a mesa está posta
e os meus olhos cansados.







4.

a vulva do texto
revela-se
na fissura imperceptível
de uma frase
vestida a rigor.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

apenas palavras





1.
dói-me a tua pele
decepada
do meu corpo.
não adianta que me plantem
rios nas palmas das mãos.

2.

fecha os olhos
e ouve o brilho
das lágrimas
que cintilam no meu pescoço.
são apenas palavras, meu amor.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

instante

foram dias
foram horas
ou segundos apenas?

sei que a comunhão

foi sagrada.

indigna dos dias sombrios.





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