terça-feira, 12 de janeiro de 2010

autofagia


Foto de Yuoko Ishii

vou fingir que é dor a dor que deveras sinto. e também a que senti: como a mesa de madeira onde apoio as lágrimas que não choro, como os estilhaços de vidro de Veneza que atirei da cómoda, como os lençóis de linho que jaziam desfeitos sobre a cama.
vou fingir que a memória está vazia, como um frasco de colónia, e que ninguém me esfacelou a alma nem o coração, vou fingir que desconheço os rouxinóis e que nunca li Romeu e Julieta. vou fingir que nunca amei: pelo menos, nunca ofereci nenhuma rosa, nem tão pouco o meu colo para afagar espinhos transparentes.

nenhum caminho se faz duas vezes e nenhuma palavra chega para dizer "te". por isso duvido da minha respiração e prefiro pisar o palco com os olhos vendados para não cair no erro de me ver ao espelho e morrer de susto com a solidão tatuada no rosto.

2 comentários:

Isabel disse...

um belíssimo texto.carta.

e algures no tempo há de existir um lenço de cambraia para te enxugar a lágrima que fingiste não existir.

a vida é tão breve A. como sabes.
anda....anda fingir que ainda há tempo de saltar sobre os abismos.

e que a generosidade não é um pão duro e esquecido na mesa da sabedoria.

triste o texto. triste o espinho. mas a flor resiste.

como nós e depois de nós...pobre viventes...sobreviventes.

Diana Correia disse...

E não é que o poeta é mesmo um fingidor e que mais vale fingir que é dor a dor que deveras sente?
Muito bom este texto.
Beijinho

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