sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

monólogo de um artista quando velho




Abre a janela. Não importa a tempestade.
Preciso de espaço para tanta memória, não consigo respirar. Quero o vento na cara, esta carcassa nua à chuva. Eu sei que tenho medo da prisão, odeio as portas fechadas desde pequeno.  Já li “O Muro” há muitos anos e quero que o Sartre se foda mais o seu existencialismo de merda. E a Beauvoir também. Que se fodam os dois que bem precisam. Eu não quero a minha liberdade interior. Quero ar livre. Quero casas sem paredes. Quero ter tanto espaço à minha volta que não saiba para onde ir. Quero perder-me no horizonte dos olhos de um marinheiro qualquer, passear num cais sem saber se parto ou se fico, emborcar uma garrafa de vodka e acordar no dia seguinte em Moscovo a tiritar de frio. Quero dar um murro no focinho do Kafka por ter escrito a história do "Artista da Fome", enfiado dentro duma jaula.
Vês estas mãos? Nunca mais vão pegar numa puta duma folha e duma caneta para escrever o caralho de uma só palavra. Ouviste? NUNCA MAIS. Não olhes para mim com esse ar de sabichão, sua bichona de merda. Se eu digo NÃO, é porque NÃO.
Tenho os miolos embebidos em álcool, os pulmões fodidos com os charutos, as mãos trémulas com Parkinson e os olhos mal te distinguem a boca. Eram lindos esses lábios, seu filho da puta. Mas agora não quero mais nada. Vai. Arruma a tua trocha e pisga-te daqui para fora. Acabou o teu tempo de antena.
Ah... poupa-me essa lenga-lenga de que preciso de companhia. Eu sei que o meu tempo está a chegar ao fim. E quero estar sozinho quando a gaja chegar. Quero olhá-la bem nos olhos, por isso tenho que os poupar, quero ver-lhe a cara e dizer-lhe: “então, filha, fizeste boa viagem até aqui? Calhei-te eu na rifa, hoje? E que tal? Achas que vai ser fácil? Pois é, tens razão. Fodido como estou, vai ser canja. Mas foi isso mesmo que eu quis, sabes? Não te dar muito trabalho. Por isso tratei de viver a vidinha toda, chupei-a como se fizesse um broche e agora estou regalado... mas tu gostas mais do sofrimento, não é? Ahahahahah... não vais ter esse prazer, minha querida. Precisavas era que te fosse ao cu, mas já não tenho forças nem para isso. Vá, faz lá o teu serviço rapidinho que eu estou farto deste filme”.
Então que dizes? Estou ou não estou preparado?
Abre a porra da janela, caralho! Quero lá saber da pneumonia. ... não consigo respirar...
Abre................ abr.................................................. aaaaaaaaahhhhhhh.......................
....................................................................................................................................



3 comentários:

José Carlos Mendes Brandão disse...

Muito bem, Ângela.

"E quero estar sozinho quando a gaja chegar." Essa é demais.

Um beijo.

Isabel disse...

ah ah ah...



viva o mais puro vernáculo aqui sendo asas para espantar e maravilhar....e de repente estou a ver o Luis Pacheco a grunhir....raio de mulher esta...carago!



boa Angela....é assim mesmo!

gabriela rocha martins disse...

excelente ,Angel(ita)

maneira de entrar em 2010 ,lendo.te


obrigada e deixa.me ,apenas ,acrescentar um voto de um ano novo tão ou mais criativo ( se possível )


.
um beijo

visitantes da babel