quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

JanelaLivro - 1


 Johannes Vermeer,  1632 - 1675






Conversei alargadamente com Mª Gabriela Llansol, sob o olhar austero de Carolina Michaëlis, que posava imponente debaixo de uma janela verdadeira. Ambas considerámos acerca da inutilidade das janelas verdadeiras e do seu malefício para o crescimento da língua, no jardim das delícias.

Sugeri que o diálogo fosse um microscópio da nossa fidelidade ao texto abíblico, troca de ideias que podiam divergir e apenas cruzar-se em nervuras de folhas lanceoladas, uma em cada mão. Assim a verdade de uma janela que foi desenhada para não poder fechar-se contra-diz a outra verdade de que uma janela pode ser a fronteira entre o dentro e o fora.  Ambas, no entanto, são inúteis para nós que queremos das janelas apenas a imagem metafórica de um limbo. A nossa janela passa assim a ser o suporte do Livro...  JanelaLivro...
Desidério nascido numa manhã de inverno, algures entre Jodoigne e Ramalde, por entre ruídos histriónicos de mulheres  medievas, de nariz curvado até ao chão, gritando em volta de uma fogueira a morte breve de poetas e aprendizes, ou qualquer outra sorte de indigentes.
JanelaLivro será escrevenciado nas fissuras do tempo, com material não reciclável, porque a sua efemeridade é condição essencial à vida-morte, sob pena de tornar-se um material digital lançado no universo tecnológico, global e asséptico, onde a espessura dos lugares bem como a das palavras se perde em ondas hertzianas invisíveis a olho nu. E onde toda a nudez é castigada. JanelaLivro irá cheirar a lixívia, no início, por ser de lavado. O tempo encarregar-se-á de lhe dar o cheiro a jasmim e a jaz(z)-te. Ou apenas o cheiro ao suor de quem o lê.
Cuidaremos de fornecer a intertextualidade suficiente para impedir uma decifração nanométrica em tempo real. Absolutamente tisana. Infindavelmente rubra. Gabriela convocará S. João da Cruz e Eckhart, quanto a mim navegarei sem rumo, nem remo. Ao som de Miles Davis e Jean Sébastien Bach (en français). Porque embora muito apoucadamente, partilho da indefinição linguística entre a que me é pátria, ou mátrea, e a que me é moldura (não de adereço , mas de molde), modulante da Weltanschaung. Bem como das paixões.
Para já vou varrer o quintal.

3 comentários:

Isabel disse...

_____________________do FULGOR!
texto para decifrar à janela de uma imagética palpável e palpitante!

José Carlos Mendes Brandão disse...

Olá, Ângela. O seu texto leva a pensar. Inquieta. O que é a língua para nós? O que são as janelas? E vamos a cultivar o nosso jardim, como o Pangloss de Voltaire, ou a varrer o nosso quintal. Quem sabe uma minhoca, quem sabe a palavra em estado larval de que fala Manoel de Barros.
Beijo do amigo.

Isabel disse...

bom dia___________Janela......da qualidade!

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