quinta-feira, 29 de abril de 2010

a coffe without Pina

Pina Bausch, Café Müller

                                                              (no dia mundial da dança)

As cadeiras ficaram espalhadas, tal como ela as havia deixado. Dominique está sentado no chão, encostado à parede vazia. Cada vez mais branca. O desencontro fora marcado para aquele sábado ao cair da noite. Naquela Primavera.
De um lado, Pina fazia perguntas, muitas perguntas sobre riachos e as árvores, sobre o vermelho e o sol, sobre as tempestades e o tempo de Chronos.
Do outro, rente ao chão, Dominique rastejava como uma serpente ou pulava como um tigre. Cavalgava nas costas de uma cadeira. Tentava penetrar na parede imóvel. Suava. Chorava. Uivava.
Ela convocou a companhia de dança. Chegaram eles e elas, clowns e manequins, esqueletos e ossadas. Havia também soldados da Bósnia, do Afeganistão e do Iraque. Havia xiitas e militares russos que tinham assassinado todos os suspeitos de subversão. E havia um dissidente chin~es. Apenas um.
Todos deviam coreografar as suas vidas naquela palco improvisado entre o Paraíso e o Mar. Não havia lugar a monólogos. O desafio era criar a Força Sagrada da Primavera, uma última vez, antes do Apocalipse.
Quando o espectáculo acabou, o público partiu inquieto, Dominique estava caído, ofegante e levantou o braço em direcção à parede vazia, branca, murmurando:
Pina!....





3 comentários:

Isabel disse...

a dança no seu majestoso Passo.
Pina com Angela.

poetasemcabeca disse...

Parabéns pelo texto.
A fotografia foi muito bem escolhida, pois transcreve muito bem as palavras.
APC

Arturo Meio Ambiente disse...

Olá, bom dia! em tudo existe verdades, mentiras, grandes enredos e, você perfeitamente descreve um pensamento lúdico e até mesmo real. Gostei muito, abs

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