sexta-feira, 2 de abril de 2010

JanelaLivro - 3

Bruno Zhu

a Janela esmoreceu com o tempo alinhavado em volta do parapeito, enquanto ela passeava pela sala em busca de um raio de sol entornado sob a mesa, num gesto desastrado da mão esquecida do cigarro que segurava displicentemente. um fio condutor da memória: o quarto escuro, enorme, onde dormia sozinha. os dias, os meses, os anos que passavam sem que uma palavra sequer fosse trocada entre pares. havia uma língua distante, de adultos, que a assustava e fascinava e a sua, terra de experimentação, que manobrava aleatória.
assim o esforço dispendido na troca de palavras de uma língua para outra era tão doloroso que o manto de silêncio se abateu sobre si até ao esquecimento total dos malabarismos que praticara na idade verdejante.
agora não conseguia ter a certeza da sua existência, porque não se revia na fala de ninguém. retomara apenas o hábito malabar de deslizar palavras pelo corpo e com elas fornicar nos dias de chuva ou de sol, indiferente à bipolaridade climática. fora de si, apenas reconhecia os gatos e as janelas.

o Livro crescia a olhos vistos, de cada vez que o regava com a água de lavar os dentes.

5 comentários:

Nilson Barcelli disse...

Ângela, já há muito tempo que não te visitava (tu também não...).
Mas vejo que continuas a publicar excelentes textos, como este.
Desejo-te uma boa Páscoa.
Um beijo.

Ana Oliveira disse...

É sempre grande a expectativa em cada visita, tão vigorosas as estórias e tão vibrante o uso das palavras.

Obrigada

Bjs

Ana

ângela f. marques disse...

Nilson,
eu escrevo sempre, mas o tempo escassa-me para ler blogs, infelizmente. Obrigada pelas palavras e visita.
Beijo.

Ana,
grata pelas palavras e pela visita.
Sou eu quem agradece a presença.
Bjs

maria manuel disse...

já me habituo aos seus excelentos textos. aqui, um retrato tão pungente da solidão, quase uma anulação na ideia de que é nos outros que nos reconhecemos. muito bem escrito.

beijo, Ângela.

ângela f. marques disse...

Obrigada. Muito. Maria Manuel.


um beijo

visitantes da babel