sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ser homem



O Douro chamava-me por entre as vinhas e a minha mãe também, anda cá que vamos a Lamego a buscar o correio e depois é distribui-lo todo até aqui. Mãe, estou cansado! Menos para trepar às figueiras é o que é! Anda daí que à tardinha vens comigo ao rio. O soalho já estava lavado com lixívia, a mesa da cozinha tinha a jarra com flores e a caneca do café pendurada no armário. A lenha do forno estava a morrer sem lume, as cavacas espalhadas em cima do granito e as cobertas das camas puxadas com genica. O sol entrava como gelo pelas janelas, lá fora o Farrusco ladrava impaciente em volta da bicicleta. Outras vezes chovia a cântaros e os gestos eram sempre os mesmos que as cartas não queriam saber da metereologia. Para que queres tu saber essas coisas, dizia-me ela, parece que te ficou a inteligência do pai, mas quem te dá o comer sou eu. Ele lá está na quinta dele mais a família a chamar a criada para trazer o leite e o pão e a geleia e depois leva-as para o cortelho, como a mim, e faz filhos sem dar por ela. Anda meu menino, a tua sorte foi o teu avô, que Deus tenha, ser um homem de bem e ter-nos arranjado esta casinha para vivermos com decência! E ainda me arranjou o emprego e a ti mandou o Sr. Joaquim cuidar da tua educação até seres homem. Bendito seja, com a graça da Nossa Senhora dos Remédios! Vamos lá.
As pedras do caminho já nos conheciam o andar, sempre igual, sempre rápido. E eu lia-lhe os nomes dos envelopes, mas ela já sabia de cor o desenho da caligrafia. A mim, faziam-me sonhar aqueles selos do Brasil… devia ser uma riqueza, tanto calor e os campos de café deviam cheirar tão bem como lá em casa ao sair do saco. Eu tinha uns livros que o meu avô tinha dado às escondidas à minha mãe para aprender quando crescesse, com a história daquelas terras, dos senhores que lá tinham quintas e outros que tinham partido à procura do ouro, que vestiam fatos brancos com chapéus de palhinha. Também tinha ficado com um cavaquinho, uma guitarra portuguesa e uma cadeirita de palha que era onde eu me sentava a ouvir as histórias que ele me contava, mal eu percebia as palavras. Parecia um mundo de música com a voz rouca entrecortada pelo cachimbo, um cálice de Porto sempre à mão e o sol a bater-nos na cara. O pai? Deixa lá meu rapaz, o teu pai não ganha juízo, mas tens uma mãe de ouro e por mim vocês não hão-de passar necessidades. Eu aqui estou para cuidar de tudo. Quando já não estiver… onde vai, avô?... Vou para longe, mas não vos deixo desamparados, podes confiar em mim.
Foi neste entretanto que a minha mãe arrumou as trouxas, toda de preto vestida e me disse que íamos para a nossa casa. Veio o Sr. Joaquim trazer-nos e despediu-se de nós com os olhos cheios de lágrimas, como eu nunca tinha visto nenhum homem chorar. Nunca mais ouvi falar naquela parte da minha família, a não ser um envelope que a minha mãe recebia todos os meses e que deixava nos correios: era uma conta com o dinheiro que o meu avô tinha mandado que me dessem até eu ser homem.



Foi demorado ser homem.



(excerto de um conto inédito, A minha noite vem mais cedo)

4 comentários:

Graça disse...

[vim...]

Gostei de tudo, do título do conto, do excerto, do estilo da narrativa... gosto de ler-te, enfim, em qualquer registo. E aquela foto do início é magnífica.

Beijo, Ângela.

[e agora vou "lá", dizer-te que vim :)]

Isabel disse...

um homem que o douro revela é um homem nunca desamparado. o registo do falso factual pode ser tão impositivo quanto a expectativa dos dias.


. voltou a A. às suas composições. como fragas que a memória acentua e a escrita desnuda.


bem re.regressada.

beijooooooooooooooo.

maria josé quintela disse...

uma janela voltada para um douro de memória antiga.


e o teu talento.


um beijo ângela.

isabel mendes ferreira disse...

e o dia vem outra vez....querida A.
bjs.

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