domingo, 21 de março de 2010

Palavras assassinas

Bruno Zhu


Ela vivia rodeada de palavras: tropeçava nelas, e afligia-se com receio de as ferir. Cuidava delas como se fossem gatos de estimação, dava-lhes comida apropriada, tinha sempre água fresca à mão de semear, mudava a areia para as necessidades e organizava toda a sua vida em função delas. Tinha mesmo, no quarto, um altar que decorava diariamente com flores brancas, incenso e velas perfumadas. A música ambiente era sempre apenas instrumental, não fossem as ditas palavras terem um ataque de ciúmes. E quem a visitasse, já sabia que não podia falar.
Aquela casa era um monumento de silêncio pesado. Sentia-se que ao mais pequeno descuido tudo podia desabar em catástrofe, porque o poder que ali reinava era sufocante. Aurora, era assim que se chamava a escrava das palavras, espalhava folhas brancas pelo chão para que estas pudessem escrever-se sempre que quisessem, mas estava proibida de tomar a iniciativa.
Aurora usava as palavras apenas fora de casa, para fazer compras, mas com o passar do tempo foi sentindo que uma ou outra se lhe escapava da memória. Pensou que era da idade e começou a preocupar-se com o futuro. Pensava agoniada no que seria a sorte das suas queridas palavras no dia em que ela ficasse acamada, porventura, e não pudesse mais tratar delas. Quem a conhecia nas suas saídas habituais percebia que o seu ar era cada vez mais sisudo e ansioso, mas não se atrevia a fazer-lhe qualquer pergunta porque sabia que a resposta seria lacónica e nada esclarecedora.
Inevitavelmente chegou o dia em que Aurora não saíu de casa à hora habitual. E os vizinhos, o padeiro, o merceeiro, o homem do talho, a peixeira e a D. Natascha, da papelaria, ficaram a tentar adivinhar o que teria acontecido. Não chegavam a acordo, porque cada qual tinha a sua perspectiva do problema, cada qual pensava ser o detentor do segredo de Aurora e afinal ficaram apenas com um emaranhado de hipóteses, sem saberem se tinham algum fundamento. Decidiram esperar pelo dia seguinte para tomarem alguma atitude.
Passou um dia. Passaram dois. Passaram três e mais não podiam passar, porque desapareceria o efeito simbólico da história. Depois de cada um fechar a sua loja, juntaram-se, foram ao posto mais próximo da Polícia dar conta do caso e acompanhados de dois agentes, como é habitual, foram em direcção a casa de Aurora, para resolver tão estranha história. Claro que tocar à porta foi infrutífero e os polícias usaram da sua autoridade para a abrirem da mesma forma que fazem os assaltantes, com um cartão de crédito da D. Natascha.
No chão da sala encontraram o corpo de Aurora amarrado e sufocado de folhas de papel todas escritas e palavras pintadas em todas as paredes. Ficaram sem perceber o que tinha acontecido, mas fizeram-lhe um enterro condigno.


2 comentários:

Susn F. disse...

Um texto mais que condigno, um final arrepiante.

Já tinha saudades.

beijinhos

maria manuel disse...

um texto do fantástico. uma lição sobre o poder das palavras. e o uso que delas devemos/podemos fazer.

gostei muito, Ângela.

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