domingo, 13 de setembro de 2009

do elogio da insatisfação



naquela manhã era cedo, muito cedo. o silêncio reinava ainda na cidade e só assim ganhou coragem para se levantar. tinham voltado a ser-lhe pesados os dias úteis, cheios de lufa-lufa, com muita pragmática na fala.
bastaram-lhe uns tempos de convívio singelo com a fonte sagrada, o ar prenhe de lembranças aconchegantes, a brisa murmurando latidos e sinos para ela respirar fundo e sentir que afinal os pulmões estavam carcomidos de lixo reciclável e da cultura vigente da satisfação obrigatória que enchia os ginásios, os spa’s, os restaurantes de comida light, as bebidas sem alcool, o café sem cafeína, o sal sem sódio, as gorduras zero, o sexo virtual.

mas a sua natureza fora embebida em aguardente e maduro tinto, em cabrito assado no forno de lenha, em calçadas íngremes que só se subiam de cajado, num sol escaldante que ignorava os raios UV e no cheiro a toda a espécie de lixo que alimentava a fome de moscas e moscardos. as conversas no adro da igreja tratavam da prima do senhor padre que estava a ficar inválida de artrose sem poder satisfazer-lhe as necessidades mais básicas de sobrevivência, sendo por isso necessário procurar uma moça bem roliça e ágil que se prestasse a ser a nova dona da casa paroquial; do filho do Jaquim que tinha emprenhado a professora num acesso de raiva ao vê-la telefonar a um namorado invisível que nunca ninguém tinha visto; do Manel que levava diariamente a comida à Micas a pretexto de que ela não se podia mexer, entrevada depois da operação às varizes, mas que lá ficava pela tarde fora até à hora do terço...

por isso, naquela manhã cedo, muito cedo, ela pegou num saco, meteu umas roupas, atirou fora o telemóvel e meteu-se no carro, montes adentro, sem dizer água vai. sentiu o sol afagar-lhe o rosto, desviou o olhar para o rio e o carro perdeu a direcção.

felizmente não tinha documentos e não havia ninguém para a reconhecer. no tablier, apenas a foto de uma mulher que ninguém identificou.

6 comentários:

maria josé quintela disse...

antes perder a direcção montes adentro do que a rendição ao tédio que se instala entre os dias úteis e os dias inúteis.

belíssimo este quadro comoventemente humano traçado com a maestria da tua pena.

um beijo Ângela.

Susn F. disse...

É uma insatisfação que se gosta de ler.

beijinhos

Isabel disse...

:)de.composição. reconhecível.


ágil nas simetrias.

__________beijo.

Isabel disse...

bom dia!!!!!!



trago um doc. assinado plo vento. brisa mais pura da ternura-:)

gabriela rocha martins disse...

deixo.te sobre o tablier ,ao lado da fotografia




.
um beijo

Isabel disse...

????????????????????????????????
__________________________.


beijo.

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