domingo, 20 de setembro de 2009

outono






é quando os dias se contam pelos dedos
que a terra se prepara a parir o ventre cheio
de uma vida inteira amadurecendo
legumes e frutos
ou azeite e farinha
que o soalho range por cuidadosos que sejam os passos
de tanto sabão amarelo e lixívia
e sossega a vigília tranquila de muitas noites vazias.

já não vejo motivo para lágrimas
a bordarem estes dias últimos
se as colheitas preparam um novo ciclo fértil
e a natureza se cumpre assim
dócil e selvagem num espasmo de amor
de quem repousa o corpo
e se evade da alma.

preparado o esquife em cerimónia singela
apenas se aguarda um sinal
que venha do céu ou dos montes
uma gota de sangue na pia baptismal
ou os sinos talvez que toquem a rebate
para iniciar o percurso do calvário
até à montanha mais alta
e com as cinzas de novo fecundar
o ventre renovado.

5 comentários:

maria josé quintela disse...

enquanto se contam os dias pelos dedos eu subo à montanha mais alta.
onde o tempo é sempre de colheita.




beijo.

José Carlos Brandão disse...

Subi a montanha mais alta
para encontrar o dia.
Encontrei os teus olhos em chamas
com um cálice de poesia nas mãos.

Um beijo.

Isabel disse...

um baptismo aurífero.

o sinal da colheita.

o coração a rebate de palavra em palavra. fotogramas do mais puro amor à terra onde "a.calvariamos" o gosto da cal que o sol alarga. .

sinal dos dias dentro deste novo tempo que é teu.

fecundo e próximo. num tecer de sonhos rubros.


bom dia A.

Graça disse...

Adoro o Outono, por várias razões, e ainda por estas que, poeticamente, gravaste em mim.

Beijo, Ângela.

Ana Paula disse...

Sentido assim, o teu Outono que seduz, cheio da natureza que nos invade e une à mãe-terra :)

Escreves mesmo bem!

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