sábado, 25 de abril de 2009

DES/OBEDIÊNCIA

Rui Oliveira, Contagiarte, madrugada de 25 de Abril de 2009, Porto

logo que as luzes se acenderam
começou o espectáculo da água
ondulante ao ritmo das palavras
que se deslizavam brancas
pela folha negra.
Num palco de silêncio
cadeiras vazias
alcatifas coçadas
de sapatos de tacão e fivela.
É que desta vez
eram palavras sagradas
que inibiam o público
a ponto de ficarem os bilhetes por vender
e tudo se passava na intimidade de uma flor
aberta a boiar em chama
e uma gotícula de água,
ínfima, levemente pousada na pétala.
A cegueira espalhou-se na sala
tal a violência da maldição
que assolava as mentes desoladas.
Ao fundo do corredor
havia um bouquet de caveiras e foices
misturadas com bandeiras
largadas na fuga
do orgasmo colectivo.
Tudo não tinha passado de uma
história de encantar
embalagem reles para o sonho
de uns quantos
actores
que acreditavam no efeito das máscaras
viradas contra os
pacientes.
Foi tudo um equívoco
de marginais absurdos
que passeavam descalços
com Artaud cambaleando de haxe
a gritar sombras dos textos
que havia de vomitar pela
europa fora.
Um conjunto enorme de bêbados
poetas malditos esquizóides,
uma parafrenália de casos
clinicamente avaliados de paranóias
e demências
em procissão escandalosamente
silenciosa
pelas ruas apertadas
deste país
que nem serve para forrar
as paredes das latrinas.
Já disse que tudo foi um equívoco
e as velas apagaram-se
em todas as igrejas
porque assim como assim
é sempre preferível uma mentira
sustentada por cegos
do que um só verso
a inventar uma realidade que
contra diz a história.
Então se estabeleceu
que o espectáculo teria lugar
num portugal revestido de asfalto
com o parque automóvel renovado
e os mortos amontoados nas bermas.
Todos comemoraram o dia fértil
da puta da república
e foram contentes para casa
porque daquela vez tinha havido
mais encores do que o habitual:
Os políticos tinham providenciado
habilidosamente
o número de cravos
por cidadão.
Quanto àqueles que quiseram
improvisar
foram prudentemente
encarcerados
nas masmorras da obediência.

ângela marques, in Cursos de água, 2007


5 comentários:

Anónimo disse...

Ângela,

já o li e reli.

Página 73 e outras.

Abraço_a outra vez.

O'Sanji disse...

Ângela
escreve-me para o meu maili! :P
há coisas para te enviar. ;)
Beijo

gabriela rocha martins disse...

desdobro.me
em
verdadeiro
espanto
e
por
conseguinte
vou
repetir
a
dose
de
leitura
até
à
exaustão
ou


interiorização



.
um beijo desobediente

isabel mendes ferreira disse...

a desobediência fica-te tão bem....



.

e tu sabes.


:)


arrumar a desordem com flores em vez de balas.
o destino maior.


beijo. a 26.

LM,paris disse...

Maravilhoso poema de resistência,
ângela estes ultimos posts estao intensos, como sempre, ou estou eu à fleur de peau, tu vois?
Amo o que dzes e saltam-me no peito as tuas palavras, merci amiga,
je suis si fiére de t'avoir á mes côtés, femme!
Artaud est mon père aussi, comment peut-on avoir un paternel aussi fou de dieu?
Sublime oeuvre, sigelada na cicatriz.
" Le théâtre rentrera par la peau,
où il ne sera plus".
Parabéns por ste texto,
tenho-o no teu livro.
beijos, com cravos colados na boca, a roerem-me os sentdos.
tua LM, ainda na terra!
LM

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