segunda-feira, 20 de abril de 2009

sob a lava

foto de angela marques, de instalação de Jakub Nepras


mão sobre mão, desenhamos a caligrafia de grafite o percurso labiríntico que nos trouxe a esta casa desnorteada. descobrimos a primeira pessoa do plural, quando flectimos os olhos sobre o lençol de linho que pairava sobre o chão:
as pétalas de junquilhos adormeceram à janela e o chá de jasmim exalava um odor a bonança que apenas existia na nossa imaginação, mas a travessia para aquela ilha sem nome e sem língua fora sem regresso.
era tarde o dia, ou só fugaz como o pico da montanha que mal sustentava os nossos passos. todo o segredo que nos envolvia estava tão só na insustentabilidade de umas pálpebras de mel que recusávamos fechar, porque o sono não existia. nem o tempo. nem o frio.
escolheramos partilhar a serenidade do nosso crepúsculo e essa era uma lei que estava acima do poder dos homens, por isso o sorriso que se reflectia na água era desconhecido até dos animais.
chegada a hora de suspender o movimento da respiração, a proximidade dos nossos rostos era a tangência exacta para que o olhar se fundisse em fogo.

e depois da lava arrefecer, não ficou mácula de nenhum pecado.



12 comentários:

PiresF disse...

Adorei ler-te. É sempre bom que ‘depois da lava arrefecer’, não fique ‘mácula de nenhum pecado’.
Este texto, depois do ‘pontos nos iiis’, só te faz mais alta.

Forte abraço, amiga Ângela.

PiresF disse...

PS: Não, não estou a estabelecer qualquer outra relação que, não seja a qualidade da escrita e os princípios que deviam nortear todos os seres humanos.

Outro abraço.

C. disse...

e assim é que é

sair de sorriso






ps: foi por uma unha negra:) foi rapidinho. ja nao tenho paciencia para carnavais. sao mais os que vao beber do que o resto...

Anónimo disse...

Depois da tempestade vem a bonança. E como não sou poeta, sou mera leitora, deixo um comentário nas palavras de António Ramos Rosa, reafirmando que "Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra."

Uma Voz na Pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

Abraço grato pelas ruas que, generosamente, nos mostra e nos ensina.

Isabel disse...

sem pecado.

com o sustento de uma escrita limpa. que nos sustenta os dias.



.

um abraço.

maria josé quintela disse...

pecado seria não fundir o olhar em fogo!


belo texto Ângela.




um beijo.

alice disse...

é bem verdade querida ângela, há palavras que nos fazem chamas nos olhos ao lê-las. é o caso destas! um abraço.

clanDestino. disse...

A lava!

D.

GMV disse...

Gostei bastante deste teu texto.

Um beijo de boa noite, Ângela

O Profeta disse...

Ó chamateia que fala da saudade
Ó canção que pões um brilho nos olhos
Ó mulher que tens a forma da viola
Ó que espalhas paixões aos molhos

E o cantar da meia-noite
A todos encanta e seduz
Cantar até que morra a voz
Cantar até que haja luz


Vem tocar uma Viola de dois corações



Mágico beijo

gabriela rocha martins disse...

ainda gostava que me explicassem essa palavra que de ,quando em vez ,ouço e leio

PECADO

por favor - recurso a dicionários ,não!


provocatória ,eu?:)))))))))


.
um beijo

Susn F. disse...

Depois de a ler, fiquei eu cheia de vontade de pecar. :)

Belíssimo.

Beiijo

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