sexta-feira, 17 de abril de 2009

os pontos nos iiis e ponto final

Barroco alemão, séc. XVII














Mário de Sá-Carneiro



DADA, 1920






PARA QUE CONSTE




Para todos os leitores/as deste blog e de outros meus passados, para quem me conhece dos blogs (ou não), para os leitores anónimos passageiros e para os fiéis amigos (ou não) decidi fazer uma pequena interrupção no carácter essencialmente criativo que este blog pretende ter, para fazer uma pequenina incursão pelo âmbito ensaístico/reflexivo, para tentar esclarecer uma polémica que involuntariamente despoletei, mas da qual não fujo, no blog anterior a este.
Escrevi então uma receita para escrita supostamente vanguardista, visando parodiar/criticar a facilidade com que se podem utilisar instrumentos gráficos, visuais e outros, sem que tal, no entanto, signifique que se está a criar alguma coisa inovadora, ou sequer de qualidade.
Aqui reescrevo, para quem não se lembra ou não conhece:






Receita:
Ingredientes:
pontos
vírgulas
ponto e vírgulas,
reticências
dois pontos
segmentos de recta (de tamanho variável)
um leque de vocabulário eclético
deíticos (q.b.)
referências q.b. a autores portugueses (de preferência recentemente falecidos)

modo de preparação:
mistura-se o vocabulário, bem batido, acrescentam-se os sinais de pontuação aleatoriamente, de preferência fora dos lugares gramaticalmente correctos, mete-se uns deíticos pelo meio e esparrama-se num blog, ou em qualquer outra folha, untada com muito melaço. Salpica-se com beijos coloridos e serve-se frio ou quente conforme a estação do ano.

Resultado:
_____________dedos. meus, teus. no labirinto das, horas----------
procuro-te-me,
legente do corpo. abandonado. seiva-nos o sangue menstrual na superfície dos rios
Sãos. são. rosas e morangos. _____________Senhora.de.mim. mente.desmente.demente.carente.potente……………..aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
, schiu. José de pé. Andrade ao volante dum chevrolet. Gabriela tão na moda. Sophia perdida na geografia do nome das coisas.
enfim. fim.






Pois bem. Apoderaram-se os leitores desta paródia e usaram-na para seu proveito, entendendo que eu estava a criticar “explicitamente” uma autora de um blog (embora já tenha tido mais), de seu nome Isabel Mendes Ferreira, PIANO. Em 1º lugar parece necessário chamar a atenção para que não há nenhuma referência nem ao seu nome, nem ao do blog, sendo que eu costumo referir os nomes de quem falo, seja para dizer bem, seja para dizer mal. Em 2º lugar também acho importante ressalvar que, se toda a apropriação dos textos por parte dos leitores é legítima (no fundo, é isso a leitura), já não é legítimo que usem essa apropriação de forma pública para veicularem, as suas guerrazinhas, ódiozinhos e outras coisas muito inhas. Em 3º lugar, decorrente dos anteriores, poder-se-ia dizer que eu estava também a criticar os poetas barrocos alemães, os dadaístas, Mário de Sá-Carneiro, Maria Gabriela Llansol e quantos mais, o que seria, da minha parte, imperdoável e ridículo, dada a formação que tenho (Filologia Românica). Finalmente, parece-me também importante sublinhar que, para fazer a crítica, optei por um texto “criativo” e não ensaístico, onde deveria expôr as regras para a “legitimação em literatura” (título da tese da Professora Silvina Rofrigues Lopes, que roubo), ou delinear aquilo que eu achasse ser o Cânone literário, armando-me em Miss Bloom cá da terra, pretensão que nunca tive nem irei ter, porque acho bastante questionável.

Creio ter sido, desta vez, bem clara, usado adequadamente uma linguagem denotativa e não conotativa, para que não proliferem as interpretações erróneas.
Resta-me deixar aqui um grande abraço cúmplice à minha amiga de muito tempo Isabel Mendes Ferreira, que tem a sageza de se manter à distância de minudências torpes e de não fazer juízos apressados.

Tenho dito. Subscrevo-me atenciosamente.

ângela marques






18 comentários:

Isabel disse...

:))))))))))))))))))))


este sorriso largo é para a nota que está na caixinha...vou subir ao pino das marés para comentar o incomentável....

por desnecessário. sobre o post. pois os pontos agora nos iiiis só revelam que o carácter é algo que ou se tem ou não se ganha nas caixas de cereais...ou em blogs fantasmas ou em comentários bailarinos de pernas quebradas...

uma história antiga que representa a apoucada modernidade de alguém que nunca soube diferenciar o palco do pano de cena.

e

Angela

OBRIGADA.

muito.



IMF, piano, hora tardia, y e sei lá mais ...o quê.

maria josé quintela disse...

1. gostei muito da tua receita (que não conhecia). mas não me atrevo a cozinhar e muito a menos provar!

2. foste clara. claríssima!

3. um abraço para ti e outro para a isabel (que paira bem alto sobre essas "minudências" torpes)

maria josé quintela disse...

nem me atreveria a comentar abaixo do nível do mar. afogava-me.

só comento acima do nível dos montes!

:))))


(e há um artigo ali em cima que está mal colocado, mas não me apetece fazer a errata. desculpas?)

ângela marques disse...

só desta vez, zé:)))))))

mas sim, tás desculpada... vá lá;)

Anónimo disse...

clap! clap! clap!

PiresF disse...

Eu gosto de pontos nos iiis e estes foram muito bem colocados.

Sublinho o que já foi dito e junto-me às palmas do Anónimo.

Grande Ângela.

Forte abraço.

maria josé quintela disse...

ainda não estou satisfeita...:)


queria dizer-te Ângela, que me deu muito prazer ler este teu post.


e agora sim. ponto.

MM disse...

Explicação desnecessária (mas compreensível) para quem te conhece e aprendeu a gostar de ti como tu és.

Intrigas bloguistas é algo meio patético mas, enfim... Como são patéticas as criaturas que andam por aí a (tentar) imitar estilos e conteúdos.

Beijos da tua fiel leitora,
MM

Anónimo disse...

Li esta sua "receita", noutro blog, há bastante tempo e lembro-me que, na altura, achei excelente e muito adequada a certa parvalhice bloguista que por aí pulula, faz tempo, armada em extasiamento "artístico".

É pena uma boa sátira ter de pedir desculpa, de existir., seja a quem for. O preço da ironia é esse: a malevolência e a perda das cumplicydades de vão de escada. É o preço da Arte.O resto, pouco presta.

J.

observatory disse...

angel angla

tas a ver a brincadeira?

acho que estas a meter tudo no mesmo saco

os que estudaram poesia visual sabem muito acerca dos visuais poeticos e nao poeticos.

é comno tudo

ha qm escreva versos e nao faça poesia

ja agora agradecia mais informaçoes acerca da dita polemica nao criativa.

olha...

acho queme irritam mais os " poemas" vibrador. funcionais até ao dito...

bjos

gostei deste post porque...

dá para guerra :)

ja tenho os meus calhaus em pilha

observatory disse...

voltei a ler o post e fiquei com duvida´s

tu vais falar da PO.EX o do equivogos da blogolandia?

como diria o outro : " SE FACHA BOR"...

GMV disse...

Para que conste... adoro a tua formação. A tua capacidade de parodiar/criticar também.

:)))

Beijo e bom fim de semana

Paulo - Intemporal disse...

Ângela

Sublime.

Porque ser mayor é ser mais alto, acima patamares a fio de inhos e inhas, que tanto proliferam neste país!

Que pena e digo pena tenho eu da mentalidade mesquinha e tacanha dos portugueses.

Sair da miséria é possível.

Basta querer...

E sigam os exemplos de toda a Europa ou até do mundo inteiro se for preciso.

íssimo beijo meu.

para TI.

para a Isabel.

Isabel disse...

"abaixo do nível do mar"....


e gosto da voz que diz como se fora música.

:)


acima do nível das palmeiras.

.

ora boa tarde A.

e
saio.

com flick flack para a esquerda. sempre.
:)

Isabel disse...

o que eu gosto desta música....:)


ih ih ih

Anónimo disse...

Bom

melhor, boa noite caríssima Ângela, se me permite.

A sua frontalidade é tão contagiante e saborosa
que quase me apetecia fazer,
dizer o mesmo (arrepio-me).
Não tenho formação académica que meo permitisse, mas tenho o discernimento para a compreender. Aprecio as palavras, respeito quem as escreve, sonho a lê-las, imagino-me nelas.
E,
arrepio-me (vezes e vezes sem conta) quando sigo por alguns caminhos (não ruas) e deparo-me com plágios descarados de textos, formas, conteúdos na pretensão de se querer ser aquele, aquela que o são realmente. A raiva sobe, aumenta o rubor da face, os decibéis do volume da indignidade e... não tenho coragem para comentar o desprezível.
Chegar aqui hoje, como a outros sítios anteriormente, faz-me respirar de alívio. Haja quem tenha voz para aquitar o ambiente que se tem vivido neste meio, onde sou mera assistente, e se ponham os pontos nos iiis verdadeiramente. Sei que só quem tem conhecimento e sabedoria o pode fazer, como acontece aqui.
Da minha parte, um enorme bem haja a si, ao PiresF e ao José da Silva Martins por defenderem os nossos autores, neste caso a extraordinária poeta IMF.

Também aplaudo com vigor. Abraço.

gabriela rocha martins disse...

como sempre chego tarde
( e neste caso ,como em outros ,ainda bem ,porque ,sinceramente ,não gosto - não me vejo nem revejo -neste género de diz que disse ou se não disse que dissesse ... o que não significa, de todo ,omissão ) e se ,porventura comento é ,tão só ,por achar divina a tua receita ( que desconhecia ,lamento ,e desculpa a minha santa ignorância! ) e para deixar o meu beijo solidário a duas pessoas a quem me habituei a admirar - a ti e à Isabel Mendes Ferreira.
um beijo

____________________

ps - desculpa o meu pseudo afastamento mas tenho tido imensa dificuldade em comentar através do canto.chão - dificilmente abro os links - mas ,seguindo um velho aforismo...
...cansei.me ,dei a volta ,entrei por outro lado e eis.me de volta "às lides"......


.
um beijo

Anónimo disse...

Caríssima Ângela

acabei de ver e ouvir, na RTP2, um programa sobre Jorge de Sena. Terminou com ele a dizer este seu poema, Muito a propósito deste seu post.

Aqui vai.

(Camões dirige-se aos seus contemporâneos)

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena
(Antologia de poesia portuguesa- M.Meneres/E.M.Castro, Moraes editores)

visitantes da babel