sábado, 12 de dezembro de 2009

outra espécie de rosa


Fotografia de Clarence Laughlin, 1938





(para o jardim do costume)

É inverno, sim. Mas imagina que é fevereiro, creio que foi por aí o nosso Natal. Falaste-me de Duras, em Paris, ou então de Camille Claudel: o mais do que suficiente para que daí para aqui se desenhasse uma “pont des arts”, de que conhecemos as pedras mais escondidas, que permitiu a construção manual deste pedaço de terra que habitamos há um tempo infinito. Sem princípio, nem fim. Atemporal. Sem relógios, nem balanças. É um pedaço habitado, mas sem paredes, uma casa do avesso para que possamos usufruir da linha do horizonte com a mesma leveza com que Rilke atravessou Praga em direcção a Llorca. Às cinco da tarde, tomamos um chá verde que secou nas planícies longínquas de uma Indochina mítica e reescrevemos a miséria das mulheres curvadas, no chão que o diabo amassou.

[Para trás ficaram os sorrisos anafados, os sainetes de salão, a convivência janota.]

As palavras também podem servir-se à mesa, com as ervilhas descascadas por Gabriela Pruniloba, no pátio da casa em Herbais. Sejam sementes ou raízes, elas erotizam na folha o sexo dos legentes atentos. Alheias a tempos cronológicos tão aleatórios como as badaladas do sino da minha aldeia. Os dias são pautados pelo paradoxo da transparência e distanciamento de Yourcenar sentada à porta do seu exílio, em Mount Desert Island, conversando com Zenão sobre a liberdade que tu transpiras em cada amostra de texto que alinhavas ininterruptamente como o fio de Ariadne.

E o fim alguém terá que escrever por nós. Alguém que sobreviva para além deste tempo.







8 comentários:

Isabel disse...

tempo de temporais in.serenos. belos e cantantes de memórias exilantes.


brilhante texto em colagem de rosas de Herbais com Yourcenar em fundo.

atenta.


:)

glorioso dia. este. aqui. Beijo A.

Anónimo disse...

Eu não gostaria de escrever o fim.

Tenho medo dos fins.

Mas gosto dos principios.

Este, vou escrevê-lo.

Corro a pedir o fio, a folha, a tinta, a pena, a cadeira, a mesa e ainda peço ao tempo que se supenda por 5 minutos.

O tempo suficiente para acordar.


Beijo
e uma rosa

que colhi neste jardim.


P

Susn F. disse...

O cultivo por aqui continua a ser surpreendente. :)
Tudo o que já foi escrito é intemporal, não precisa de um fim.

beijinhos ângela

Isabel disse...

este teu texto é ENORME!!!!!!!!!

isabel mendes ferreira disse...

mentira.


E N O R M Í S S I M O!!!!!

ângela marques disse...

ENORMÍSSIMO é o jardim para quem o escrevi.

PiresF disse...

Eu faço coro com a I: E N O R M Í S S I M O!!!!

De excelência.

Beijos, Ângela

alfazema disse...

Excelente texto e excelente blog
parabéns.

Boas festas

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