domingo, 20 de dezembro de 2009

avec le temps


Fotografia de Clarence Laughlin, 1941


lenta hesitação entre

teclas pesadas frias

e o calor da pena ou

da caneta vagarosa

desenhando letras

no mata-borrão

que se juntam em sílabas

palavras esvoaçantes

lançadas à sorte

de marinheiros do passado

e imigrantes do presente.

(a noite fazia gelo e a conversa

aquecia com a erva misturada)

outros olhos a falarem de cá

os mesmos a falarem de lá

uma corrente de vozes atentas

dispersas entre Berlim e o Porto

Veneza agonizante de espelhos

edipianos de uma culpa

informe. o artista incendiou

a própria casa apenas para

poderes contar-me a história

e eu vagueio em amesterdão

ao som de um saxofone

porque me repugnam

os cetins e toda a sorte

de beleza que paira nos céus.

os meus sonhos

têm raízes nas fossas de

Paris e nas peixeiras de Cesário

a minha caneta escreve com sangue

das feridas do Kosovo

e as minhas insónias

são delimitadas com arame

farpado a cheirar a judeus:

preciso, ainda hoje,

de me inclinar sobre

os esqueletos putrefactos

para ter a certeza de

que não vim ao engano

passear airosa sobre um jardim

édénico inventado

antes do Verbo.

eu não consigo ver rosas

onde a lama escorrega

impunemente.




4 comentários:

Graça disse...

Ângela... magnífico!

"eu não consigo ver rosas
onde a lama escorrega
impunemente."

Admiro-te nas palavras com que olhas...


Feliz Natal, porque é tempo de o dizer.

Beijo meu.

Isabel disse...

"avec le temp......"


tudo se vai?


mas fica o tempo de poeirar o que não sendo__________foi.

ficam as tuas palavras....ficam!


edénicas? proféticas.



beijo....!

Anónimo disse...

Ângela, magnífica selecção musical! Magnífica!
Diria o mesmo do seu texto, não fora, por questões ideológicas (limitação minha, reconheço), lhe sentir a falta dos mouros, índios, negros e outros «bárbaros» trespassados em nome desse deus que insiste em nascer todos os anos. E o sangue da Palestina. E o sangue de quem teve o azar de nascer numa terra onde há petróleo...
Partilho, consigo, a impossibilidade de ver rosas hoje, mas não desisti de acreditar na sua possibilidade no futuro. Por isso, ainda que eu não as chegue a ver, continuo deitando o fertilizante que consigo arranjar, vou lavrando a terra... e tento reciclar as ervas daninhas - afinal, também são criaturas...

José Carlos Mendes Brandão disse...

... e viver dói.
No entanto, continuamos. Mastigando a nossa insatisfação, continuamos.

Beijo.

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