domingo, 1 de novembro de 2009

cronicando

(foto tirada gentilmente por um desconhecido que só depois reparei mal se segurar em pé de tão bêbado que estava)

Ando farta de oxímoros diletantes, de metonímias pomposas, de toda a retórica que se compra nas grandes superfícies.

Pelo contrário, no comércio tradicional, que não seja gourmet, encontro as metáforas vibrantes que dedilham a guitarra portuguesa e o contra-baixo de charles mingus. Palavras como estrume, morangos, mel, detalhadamente colocadas em prateleiras envidraçadas, com a minúcia de merceeiro calvo que não confunde milho com trigo e obviamente sabe distinguir este último do joio. Não estão empacotadas as palavras: são colocadas conforme o pedido do freguês, em sacos de papel, que este leva na mão e vai comendo devagar, quando o sol rasa rios e mares e o cheiro das castanhas invade a cidade, juntamente com os gritos das gaivotas.

Porque as palavras, ao contrário do que dizem correntes pós-modernas e afins, são para ser comidas, trincadas, mastigadas e engolidas. De preferência com a ajuda de um maduro tinto de boa colheita: seco, encorpado, acima dos 12º.

Em suma, prefiro Cassandra a Penélope.

Hoje.

Amanhã talvez opte por um aforismo de Agustina.

Lisboa/Porto, 31/10/09



5 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

desde que seja um aforisma agustinianamente oxímoro e cantante....por mim espero. sentada debaixo da inclinação do vento e sem sombra de líquidos que turvam o vermelho das quadrículas digo que gosto deste "a.cronicar" nada anacrónico. antes sibila. antes teoria do drama e do tempo.

.

enfim....acthim....com beijo.

ângela marques disse...

atchim também para ti:)))))))))))

maria josé quintela disse...

por mim podes aviar-me um pacote de palavras destas, todos os dias, que eu prometo mastgá-las acompanhadas de um tinto do douro.




boa noite ângela. e um beijo.

MM disse...

Já tinha saudades destas andanças... Por absoluta entrega ao trabalho e à árdua tarefa de sobreviver, o escorpião que há em mim quase afundava-se a picar a rã. Eis senão quando a Isabel Mendes Ferreira lançou-me a bóia, num gesto de pura amizade misto de ternura e saudades. Eu diria um afago, pois foi assim que o senti. E perguntarás por que raio estou-te a escrever sobre isso. E a ti perguntarei o que a menina anda a fazer na mouraria? Assim faço a festa e deito os foguetes... As canas deixo-as cair, não me servem para nada. Prefiro olhar esta tua fotografia e deixar-me comover. É sinal de que ainda estou viva, algures entre lá e cá. Obrigada querida Ângela. Beijos,
MM

MM disse...

E já me ia esquecendo: as palavras são para ser ditas.

(fui!..)

MM

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