quarta-feira, 20 de maio de 2009

Páginas Íntimas


Konstantin Kavafis, 1863 - 1933



Já eu descia a escada miserável
quando entraste apressado pela porta;
vi o teu rosto que não conhecia, e também me viste.
Ocultei-me então, para não ser visto uma segunda vez,
e passaste com o rosto na sombra,
perdido já na casa infame
onde não sentiste, como eu, nenhum prazer.


O amor que desejavas eu podia, no entanto, dar-te;
e o amor que eu desejava - diziam-me os cansados
e ambíguos dos teus olhos - podias dar-me.
Tudo era sabido pelos nossos corpos que se procuravam;
éramos compreendidos pelo sangue e pela pele.


Pois assim mesmo não deixámos, perturbados, de nos ocultar.



Konstantin Kavafis, Páginas Íntimas, Hiena Ed.,1994 (trad. João Carlos Chainho)




5 comentários:

maria josé quintela disse...

páginas íntimas.


de íntimos desassossegos.





não conhecia. obrigada ângela.


beijo.

isabel mendes ferreira disse...

desocultação!



de um clássico que preservou a pele da alma e


mais tarde a entregou.




Kavafis....:) O descontento e o rigor.


____________assim.


em cântico....mais grego que a grécia....que o foi escondendo...:)


beijo.

José Carlos Brandão disse...

O amor é grego, a poesia mais alta é grega, Deus é grego.
Não me lembrava - não conhecia, certamente - esse poema de Kavafis. Foi muito bom lê-lo.

beijo.

alice disse...

gostei muito, ângela. não conhecia... mas diz a verdade, o que nem sempre é fácil em poesia. um beijinho grande. (a música é um assombro!).

gabriela rocha martins disse...

selecções mais do que perfeitas num complemento directo

ou não fora a Grécia

( por isso ficámos todos gregos por ainda ,hoje ,a não termos conseguido ,integral mente ,entender//conhecer//saber//interpretar )


.
um beijo

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