quarta-feira, 27 de maio de 2009

Passeio Alegre



Ela tinha o olhar perdido sobre o Douro. Ali mesmo naquela linha invisível em que ele desagua no Atlântico. O mar….



_________________Amar?____________________________



Por mais quilómetros que fizesse, era sempre ali que ia ter. Fosse manhã ou fizesse chuva, por uns breves minutos ou uma tarde livre, era como se fosse o carro a conduzi-la àquele lugar, cheio de memórias, desde a infância até ao passado recente.
É uma mulher que ultrapassou a metade da vida, num percurso sinuoso, atulhado de incidentes mais ou menos incorrectos, que sempre teve o seu porto de abrigo na cidade granítica onde agora reside, sem saber por quanto tempo



( O tempo de Ulisses? )



___________________________porque desprezava os planos quinquenais desde que abandonara a militância comunista, na sua juventude. E no entanto, tinha sido um tempo feliz, Esse, repetia ela com orgulho nas suas rugas.
Mas agora, neste presente da narrativa, ela decidiu dar ouvidos aos desígnios da natureza, há quem lhe chame destino, ou vontade de Deus_____ é-lhe indiferente a nomenclatura. Queria estar atenta. Não perder o mais pequeno sinal que fosse. Foi assim, que se deixou levar, sem qualquer preconceito para aquele Passeio Alegre (embora, às vezes, triste).
[trocadilho de gosto altamente duvidoso]
A verdade é que era uma expressão da burguesia medianíssima do seu berço, dizer-se que “iam dar o passeio dos tristes”, ao domingo, depois de lautos almoços que se seguiam à Missa do meio-dia. E era uma tristeza de fazer agonia, ver o parque automóvel portuense dos anos sessenta, escuro, todo em formatura, entre as palmeiras, com famílias inteiras a fazerem inevitavelmente as mesmas coisas:
_________________o pai a ler o jornal;
_________________a mãe a fazer crochet;
_________________os filhos a brigarem por uma língua da sogra;
_________________e a sogra a passar pelas brasas.



Certo é que aquele Passeio, Alegre ou Triste, sempre fizera parte da sua vida. Umas vezes por obrigação, depois por opção. E também por acaso. Muitas vezes para respirar o mesmo ar que o Eugénio, ou vê-lo à janela.
Ainda ontem lá estive e a encontrei, no seu automóvel, não por acaso preto, com as janelas abertas, ouvindo Barbara, com o olhar perdido sobre o Douro acima.



Desta vez, esperava por alguém...



6 comentários:

isabel mendes ferreira disse...

a espera tem momentos assim. em que se volta e re.volta ao lugar do coração. a cabeça escreve com letras contidas o que a alma diz em voz alta....e o tempo é mesmo uma ponte a encurtar a distância.


belo passeio___________é o que te desejo A.


lá ao longe mora um lugar que é o teu lugar de sempre.

maria josé quintela disse...

nostálgica e doce. a memória.



bela essa nesga de azul de fuga do olhar.




um beijo ângela.

José Carlos Brandão disse...

Vivemos de memórias.

Horas non numero nisi serenas,

(não contemos senão as horas felizes).

beijo.

Tchi disse...

Um passeio que os meus pés calcaram muito.

Alegre(s) passeio(s).

Faz tempo.

:)

gabriela rocha martins disse...

excelente narrativa onde os olhos se colam e chegados ao fim regressam ao princípio como uma necessidade ,imperiosa ,de ensinar a mente a recriar


.
um beijo
( volto .por necessidade de re re ler.te... )

gabriela rocha martins disse...

prometido é devido ..... e mais ,quanto ao comentário deixado no canto.chão .... depois a exagerada sou eu!!!



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um beijo ,Angel(ita)

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