sábado, 28 de fevereiro de 2009

fragmento de escrita mais ou menos automática

Marcel Duchamp revisitado por ângela marques
A erva que nasce dos meus pés é uma marca da pós-modernidade desconstrucionista na dobra do tempo inefável, circunscrevendo-se aos ditames da lei do mais forte, na linha horizontal de um pedido exíguo que inconscientemente me bate à porta. No entanto, tendo em conta a carestia de vida e o calejamento das mãos confesso que o pavor que encontro nos teus olhos me repugna qualquer interrogação retórica e antes me atrai a hiperbolização dos sentimentos como forma de conhecimento imediato, sem a peneira da farinha a impedir que os raios de sol me lambam o corpo.
É com uma convicção vinda do mais fundo das minhas artérias que me sinto condenado ao esvaziamento total das palavras que tenho guardadas no disco duro do meu cérebro, para devolvê-las ao esterco que corrompe as bocas dos dirigentes imundos e dos mundos dirigentes, indigentes, detergentes que lavam branco, muito branco.
Tudo incrivelmente asséptico, de forma a não restar um segundo de dúvida metafísica acerca da relação possível entre o erotismo e a inteligência.
O azul pode transformar-se em amarelo desde que as premissas estejam lançadas pela janela fora e os vómitos dos condenados sejam arrancados a ferros num parto prolongado até ao estertor de uma mãe moribunda.

8 comentários:

maria josé quintela disse...

confesso que também me atrai mais "a hiperbolização dos sentimentos como forma de conhecimento imediato".


mas fico aqui mais um pouco a desfragmentar este belo fragmento.



bom dia Ângela.

Paulo - Intemporal disse...

e,________________________________

finalmente encontro aqui um verdadeiro e indiscutível fragmento
[...]

Na verdade de todos os azeites que flutuam na água, ou até sobre os esgotos.

No mísero dos dias por acrescentar.

E deixo-TE um beijo imens.íssimamente sentido.

MM disse...

Bom dia Ângela,

Não, não caias do sofá! Sim, sou eu a ler-te e a comentar a tua “Babel”. Como te disse, só não o faço mais vezes por manifesta falta de tempo. Percebo-te bem: tudo o que é demais faz mal (digo eu que sou excessiva, logo, é com propriedade que percebo o teu farta farta farta) ;-)). Mas folgo em ver-te a escrever com tanta convicção. Gostei muito deste fragmento, especialmente da “dúvida metafísica acerca da relação possível entre o erotismo e a inteligência” (que na minha modesta opinião não será assim tão metafísica…), sobre a qual haveria muito a dizer noutro contexto e espaço. Na falta de certezas, mais vale seguir o conselho do Poeta e comer muitos chocolates, já que “as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria”.

Um dia Azul para ti,
MM

gabriela rocha martins disse...

é
no
estertor
dos
mortais
dirigentes
indigentes
de
si
que
nobilitam
as
palavras
corrosivas
dos
criadores

do belo

in
distrutivel
mente
onde
TE
perdes
e
eu
TE
acho



( vim obrigatoria
mente a uma
das
minhas fontes .convém que não te dê a "macaca" )





.
um beijo
( redobrado pela volta ]

José Carlos Brandão disse...

"A erva que nasce dos meus pés" - gostaria de ficar com essa imagem. Para mim é o mais importante: a ligação do homem com a terra.
Mas mais abaixo você diz: "condenado ao esvaziamento total das palavras", outra me minhas preocupações, a palavra e seu esvaziamento de sentido, como um perigo, por um lado, e, por outro, como uma necessidade, deixar a sua carga de significado já velho, para assumir o novo, ou para tornar-se imagem.
Foi bom. Seu texto propiciou-me boas reflexões.
Abraços.

isabel mendes ferreira disse...

abençoada "epifania" que assim desliga o profano do comum e o transforma em sempre actual.


posso subscrever?

_____________bom dia A. e Tu estás melhor?
:)

anda um virus por aí...aqui....ali...
enfim...soltou-se.


beijo.

venho tarde. aliás chego sempre tarde....mesmo que seja pontual.

entardeço.

_________________________.

Bandida disse...

forte e magnífico texto. perto do portão onde as cicatrizes deliram. não se pode fingir que sabonetes e detergentes chegam para entorpecer as memórias diárias dos sonos aflitos. há demasiados gemidos.


um abraço

simplesmenteeu disse...

parto de palavras que arranham...
de verdades branqueadas num suporte moribundo de sonho arrancado...
é preciso que o sol lamba o corpo inteiro, sem o desvio da mente...
é preciso voltar a ser a lei do sentimento... mesmo que o azul não seja mais azul... o amarelo será sempre um reflexo de amanhecer...

Beijo

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