terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

in memoriam





(para a Norma, mulher de J.A.S., com a amizade de sempre)




Desde que conheci o Professor José Augusto Seabra, na Faculdade de Letras do Porto, há 34 anos, até à data da sua morte, construí uma imensa teia que foi uma relação de afecto complexa, sem concessões, limpa de miudezas torpes. Feita de um diálogo ora tenso, ora cúmplice, mas sempre diálogo que foi uma, de entre muitas coisas, aquilo que com ele aprendi. Ouso dizer que foi o mais importante.
Diálogos progressivamente mais sintonizados, onde se perdia muitas vezes a noção do tempo, em favor de uma descoberta e aprendizagem permanentes, da minha parte, de desabafos ao mesmo tempo tristes e sempre optimistas por parte deste homem que “De exilo em exílio”[1] nunca deixou de olhar para Portugal com a preocupação e a acuidade que lhe eram características.
José Augusto Seabra foi um homem que deu do seu melhor a este País, e no entanto coube-lhe um “desterro” eufemístico. Não venham os poderes passar uma esponja por cima de mais uma das muitas injustiças que nos envergonham a história.
Aqui deixo, ensanguentadas, as palavras que ficaram por dizer, meu amigo. Aqui encerro, apenas simbolicamente, as nossas conversas intemporais, meu professor. Aqui planto uma cruz na terra de Ulisses, eterno companheiro de uma viagem interminável. Aqui levanto a voz aos céus para que me ouçam poetas e amigos nesta oração ateia. Aqui chamo a terra para que te embale a alma. Aqui enuncio as declinações desta língua que falaste “pobre lusíada, coitado”. [2]
Aqui des/enterro a tua voz para que fique dela o sabor e o saber.


[1] Título do seu último livro, publicado por Folio Edições.
[2] Citação de um verso de António Nobre, que José Augusto Seabra utilizou numa das dedicatórias que me deixou.




Bellini: Norma - Act 1: Casta Diva - Maria Callas; Tullio Serafin: Coro E Orchestra Del teatro Alla Scala

3 comentários:

Bandida disse...

mais uma vergonha. mais uma das vergonhas.

bela homenagem a que tu fazes, perante a qual me curvo, com todo o respeito.


um abraço

Bandida disse...

a propósito do gato. eu adoro gatos!

ângela marques disse...

OBRIGADA, profundamente, Bandida!

(ainda bem que me disseste isso dos gatos:))))))))))) era uma falha no teu currículo.)

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